domingo, 24 de novembro de 2019

Holodomor: genocídio de milhões de ucranianos
silenciado pelas esquerdas brasileiras

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs



Nos milhares de aldeias ucranianas, desertas e em ruínas, perto de grandes cidades como Kharkiv, Kiev e Odessa, ainda parece se ouvir os uivos da fome, escreveu o jornalista Jeffrey D. Stephaniuk, da agência Euromaidanpress, de quem extraímos as citações deste post.

Nessas aldeias ecoa, no silêncio, o brado lancinante do Holodomor, o genocídio pela fome ordenado por Stalin para extinguir os proprietários rurais  e todo um povo que não se vergava à utopia socialista.

Os camponeses e suas famílias não estão mais ali para contar: morreram aos milhões ou fugiram até caírem exaustos numa estação ferroviária onde ninguém os auxiliava.

Aqueles, como foi o caso de alguns mestres de escola, que tentavam atender famílias e crianças que agonizavam extenuadas foram presos pelos agentes comunistas e exilados na Sibéria – de onde poucos voltaram – pelo crime de espalhar rumores a respeito de uma fome que oficialmente não existia.

Não existia por decreto de Stalin, que a tinha ordenado.


Comício da Frente Popular francesa Léon Blum (Partido Socialista), Maurice Thorez (Partido Comunista), Roger Salengro (Partido Socialista). Esquerdas ocidentais democráticas e iluminadas foram cúmplices.
Comício da Frente Popular francesa Léon Blum (Partido Socialista),
Maurice Thorez (Partido Comunista), Roger Salengro (Partido Socialista).
Esquerdas ocidentais democráticas e iluminadas foram cúmplices.

O inexplicável silêncio no Ocidente cooperou para o genocídio

Mas, esta é a curiosidade macabra, o decreto de silenciamento vigorou também no Ocidente, onde admiradores declarados ou velados de Stalin manifestavam ceticismo diante dos relatos, fotos e filmes que evidenciavam essas mortes atrozes de milhões.

Esse viés pró-Stalin se manifestava até nos púlpitos religiosos, inclusive católicos.

Como pode ter isso acontecido? Como foi possível que democratas, liberais, humanitários, líderes políticos cristãos e até eclesiásticos insuspeitos de comunismo cooperassem tão eficazmente no abafamento desse genocídio?

Aliás, em certo sentido, eles continuam cooperando, silenciando ainda hoje os efeitos assassinos do flagelo comunista contra os quais Nossa Senhora em Fátima quis advertir os homens.

Sobre essa espantosa cumplicidade ocidental e seus efeitos no III milênio, veja o clarividente manifesto do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira: Comunismo e anticomunismo na orla do III milênio: uma análise da situação no mundo e no Brasil

O biógrafo Ian Hunter citou um alto eclesiástico anglicano da Inglaterra que elogiava Stalin pela sua “determinação e gentil generosidade”.

Malcolm Muggeridge, que passou oito meses na URSS entre 1932-33, não encontrava palavras para descrever a fome na Ucrânia resultante da coletivização das terras e a luta de classe contra os proprietários, “por causa do indescritível horror e a magnitude” do fato.

À Ucrânia poderiam se aplicar as Lamentações de Jeremias quando falam da fome em Jerusalém no ano 586 a.C.

O mais doloroso subproduto dessa desgraça foi o canibalismo que chorou o profeta:

8. Het. Agora, seus rostos ficaram mais sombrios do que a fuligem; pelas ruas, são irreconhecíveis. A pele se lhes colou aos ossos, e qual madeira ressecou-se.

9. Tet. As vítimas do gladio são mais felizes do que as da fome, que lentamente se esgotam pela falta dos produtos da terra.

10. Iod. Mãos de mulheres, cheias de ternura, cozinharam os filhos, a fim de servirem de alimento” (Lamentações, 4, 8-10)

Geografia da grande fome comunista de 1932-1933
Geografia da grande fome comunista de 1932-1933
Muggeridge estava convencido de que “foi um dos mais monstruosos crimes da História, de tal maneira terrível que o povo no futuro dificilmente poderá acreditar que algo assim aconteceu alguma vez”.

Para muitos, a fome era um castigo que mereciam por terem apoiado os comunistas nos anos precedentes. Muitos acharam que os comunistas agiram como látego de Deus.

Miron Dolot descreve em outro livro o povo clamando a Deus contra o furor de Satanás que se abatia sobre ele.

Prelúdio da descristianização do “período pós-conciliar”?

A transição para o ateísmo nas cidades e no campo tinha se iniciado anos antes. As cruzes haviam sido derrubadas e em seu lugar ondeavam bandeiras vermelhas. Os altares foram removidos dos santuários.

Outrora, nas casas, aos pés de um ícone os camponeses colocavam um pão “como símbolo da generosidade de Deus”, escreve Miron Dolot em “Execution By Hunger”.

Mas, sob o socialismo, instalou-se o desespero nas casas, onde se morria silenciosamente de fome. Foi uma brutal transformação dos meios de produção, que passaram das mãos de particulares para as do Estado por ordem de Stalin.

Antes da fome, as aldeias começaram a se proclamar ateias e banir os clérigos. Pilhas de Bíblias e de ícones foram queimadas em público. O Natal passou a ser um dia de trabalho e os sinos foram fundidos para favorecer a industrialização.

Até que chegou a fome.

As cerimônias religiosas cessaram. O Natal de 1933 foi o primeiro a não ser mais celebrado. Depois não houve festa de Páscoa na primavera. Não havia mais locais de culto e nem mesmo clero.

Por volta de 1933, o sistema de espionagem da polícia secreta e das ligas da juventude comunista havia desintegrado o senso da comunidade. O povo se trancava nas casas para aguardar a morte.

Os recintos sagrados vinham sendo transformados em teatros ou museus do ateísmo. Nas aldeias, as igrejas viraram locais de reunião do Partido Comunista. Os ícones e as pinturas mais veneradas foram substituídos por imagens do Partido Comunista e de seus líderes.

As orações foram substituídas por cânticos de ódio, e nos estandartes expostos nas igrejas lia-se: “a religião é o ópio do povo”. E, ainda, “é impossível construir um assentamento coletivo onde há uma igreja”, ou “em vez dos sinos, gozemos o ruído dos tratores”.

As igrejas convertidas em depósitos ficavam, durante os tempos da fome, cheias de grãos protegidos por guardas armados, numa blasfema paródia do morticínio de massa: outrora elas eram a casa do Santíssimo Sacramento, visível na Santa Eucaristia, que alimentava espiritualmente os fiéis que comungavam.

Ironicamente, o trigo, produzido com as próprias mãos e com o qual se confeccionava a hóstia que seria oferecida a Deus no sacrifício incruento da Missa, havia sido confiscado e guardado nos templos por agentes marxistas, para que os camponeses morressem sem alimento.

Ateização por meio da reforma agrária

Enterro dos restos das vítimas pela fome e repressão de 1946-47 achados na estação 'Pidzamche' em Lviv
Enterro dos restos das vítimas pela fome e repressão de 1946-47
achados na estação 'Pidzamche' em Lviv
O trigo seguia depois para as cidades, e também para o exterior, onde líderes marxistas e não-marxistas comemoravam o sucesso produtivo da reforma agrária socialista.

Até o Holodomor, a família camponesa ucraniana típica concebia grande número de filhos. Ela passou a ser acusada de “inimigo de classe” por gerar tantos súditos.

As crianças que sobreviveram ficaram órfãs, pois os pais haviam se sacrificado por elas. Mas acabaram se alistando em gangues que pilhavam as cidades. Como o comunismo desejava formar um tipo humano novo, quis transformá-las no homem soviético.

Myroslav Shkandrij, em Fiction by formula: the worker in early Soviet Ukrainian prose, descreve o novo tipo humano como “um ser reduzido pelo Partido a um estado de desorganização e desmoralização”, que poderia ser modelado como massa para gerar um homem conforme aos ideais socialistas.

O Cristianismo ensina que o homem foi feito à imagem e semelhança de Deus e foi redimido por Cristo. A coletivização socialista da agricultura visou destruir essa ideia, corporificada no proprietário.

Por isso, os antigos proprietários – inclusive os menores – foram violentamente excomungados do mundo novo do socialismo, sem ter um lugar na Terra aonde ir.

O dono da terra passou a ser apresentado como um opressor do proletariado pobre e marginalizado.

O fazendeiro estava do lado errado da equação marxista por se encontrar espiritual e juridicamente relacionado com a terra através da propriedade privada.

Todos os crimes da reforma agrária faziam sentido porque impulsionavam a transição do capitalismo para o socialismo e o comunismo.

Aldeias inteiras foram condenadas à morte pela fome por se negarem a entrar nessa evolução progressista.

Deve-se sublinhar que nas regiões – maioritárias, aliás – atingidas pelo flagelo russo-marxista do Holodomor, predominava a religião dita “ortodoxa”, um cisma do catolicismo.

O clero “ortodoxo”, em vez de pregar contra o monstro marxista, “virou a casaca” e se tornou um vil colaborador do carrasco socialista.

O grande clamor aos Céus pedindo a vingança divina

O heroico metropolita greco-católico de Lviv, Andrei Sheptytsky, impulsionou o vibrante apelo.
O heroico metropolita greco-católico de Lviv, Andrei Sheptytsky,
impulsionou o vibrante apelo.
O único grande clamor pela nação chacinada proveio da parte ocidental da Ucrânia, onde predominavam os católicos, cujos bispos lançaram um lancinante apelo ao mundo.

Em julho de 1933, a hierarquia católica ucraniana de Halychyna [Galícia, ocidente da Ucrânia] fez esse apelo.

Ele foi publicado primeiro no jornal “Pravda” (“A Verdade”) XII nº 30, do dia 30 de julho de 1933. Ele foi reproduzido posteriormente no livro do bispo Ivan Buchko First Victims of Communism: White Book on the Religious Persecution in Ukraine, publicado em Roma, em 1953.

O apelo dos bispos católicos ucranianos descreve as atrocidades que aconteciam no leste de seu país sob a bota bolchevista.

“Agora vemos as consequências do regime comunista: a cada dia elas se tornam mais aterradoras. A visão desses crimes horroriza a natureza humana e gela o sangue. (...)

“Protestamos diante do mundo inteiro contra a perseguição de crianças, pobres, doentes e inocentes. Por outro lado, citamos os perseguidores diante do Tribunal de Deus Todo-poderoso.

O sangue dos trabalhadores famintos e escravizados tinge a terra da Ucrânia e clama aos Céus pedindo vingança, e o pranto das vítimas consumidas pela forme chega até Deus no Céu.

“Imploramos aos cristãos de todo o mundo, a todos aqueles que acreditam em Deus, e especialmente aos nossos compatriotas, a se unirem ao nosso protesto para tornar nossa grave denúncia conhecida até nos cantos mais remotos da terra.

“Pedimos às emissoras de rádio retransmitir nossa voz pelo mundo todo; talvez ela chegue até os empobrecidos e desolados lares que gemem na fome sob a perseguição.

“Então, pelo menos tendo conhecimento de que estão sendo lembrados, de que há pessoas que têm piedade de seus irmãos em terras remotas, eles se sintam confortados pelas suas orações e encontrem uma consolação em meio a indizíveis sofrimentos e à morte iminente.

“Para todos vós, sofredores, famintos, moribundos, nós imploramos a Nosso Senhor Misericordioso e Nosso Salvador Jesus Cristo:

“Aceitai esses sofrimentos em reparação por vossos pecados e pelos pecados do mundo, repetindo com Nosso Senhor: ‘Pai nosso que estas no Céu. Que vossa vontade seja feita’.

“Aceitar voluntariamente a morte pelas mãos de Deus é um oferecimento que, unido ao sacrifício de Cristo, vos conduzirá ao Paraíso e atrairá a salvação para todo o povo. Depositemos nossas esperanças no Senhor.

“Dado em Lviv, na festa de Santa Olga, julho de 1933.”

Assinam: o metropolita Andrés Sheptytskyi; Dom Gregório Khomyshyn, bispo de Stanyslaviv; Dom Josafá Kotsylovskyi, bispo de Peremyshy; Dom Gregório Lakota, bispo auxiliar de Peremyshyl; Dom Niceta Budka, bispo titular de Patara; Dom João Buchko, bispo auxiliar de Lviv, e Dom João Latyshevskyi, bispo auxiliar de Stanyslaviv.


segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Mercenários russos no Chile e na Bolívia até Síria e África Central

Evgeny Prigozhin, chefe da 'Wagner'. Objetivo é eliminar os opositores de Putin em qualquer lugar.
Evgeny Prigozhin, chefe da 'Wagner'.
Missão é eliminar os opositores de Putin em qualquer lugar.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Em setembro ficaram mais uma vez em evidência: 35 mercenários russos pereceram combatendo perto de Trípoli, capital da Líbia.

O site russófono Meduza, sedado na Letônia, divulgou que pertenciam à milícia privada “Wagner”.

Essa milícia conta com 5.000 mercenários e é criação de Evgeni Prigozhin,

58 anos, um “oligarca” a serviço de Vladimir Putin. Os mortos caíram guerreando contra o governo líbio.

O comandante Alexander Kuznetsov foi ferido e descoberto na Líbia.
O comandante Alexander Kuznetsov
foi ferido e descoberto na Líbia.
O fato teria ficado ignorado se o chefe da facção russa não tivesse sido ferido e levado de urgência a um hospital de São Petersburgo, segundo informou a revista francesa “Le Point”.

Tratou-se de Alexander Kuznetsov, alias “Ratibor”, que já passou pelos cárceres por assaltos e sequestros e já posou em 2016 no Kremlin à direita de Putin, no dia que recebeu dele pela quarta vez a Comenda da Coragem.

“Wagner” já enviou mercenários para 13 países africanos.

Na República Centro-Africana, fornece os guarda-costas dos chefes das minas de diamante e ouro e suas tropas custodiam os depósitos de materiais preciosos.

Kuznetsov já trabalhou para o falecido ditador terrorista Kadafi.

Ele é um assíduo de Moscou onde intercambia decisões com o chefe da “Wagner” Evgeni Prigozhin, apelidado de “cozinheiro chefe” de Putin.

Milicianos da 'Wagner' na Síria.
Milicianos da 'Wagner' na Síria.
No Sudão “Wagner” defendeu ao ditador Bashir. Em Moçambique 200 milicianos desembarcaram com 3 helicópteros de ataque para salvar o governo.

Ainda na África, o “comissário” Prigozhin tenta construir parcerias com a República Democrática do Congo, Moçambique, Zimbábue, Angola, Guiné-Bissau e Madagascar.

Ele confiou a direção operacional de “Wagner” a um agente do GRU, o serviço de inteligência militar russo, Dmitri Outkine, condecorado por Putin em 2016, e conhecido por carregar uma tatuagem de suástica no ombro e um capacete com chifres durante os combates.

Prigozhin mobiliza na Síria entre 2.000 e 4.000 homens, pagando US $ 2.700 por mês. Damasco lhe concedeu 25% da produção local de petróleo “liberado”.

“Wagner”  sofreu uma hecatombe na Síria, em 2018, na região de Deir ez-Zor, quando aviões americanos interromperam uma ofensiva em que participavam.

Em verdade, “Wagner” aparece como o instrumento destinado a restaurar a grandeza da Rússia que é prioridade aos olhos de Putin.

Moscou tira o corpo alegando que “pouco se pode fazer para impedir que um cidadão russo se torne guarda-costas no exterior”, como disse Maria Zakharova, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores.

Mais recentemente, a milícia privada “Wagner” mostrou suas garras na América do Sul. Com maior destaque na Venezuela, no Equador, no Chile e na Bolívia.

O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, expressou certa vergonha durante discurso televisionado na TV nacional Rossiya 1, para explicar o envio de 400 mercenários da “Wagner” à Venezuela.

Eles estão em Caracas para proteger o presidente Nicolás Maduro, disse a Reuters citada pela revista “Le Point”.

Os treinos na África Central são em russo
Os treinos na África Central são em russo
Mas também na Venezuela devem salvar os bilhões de dólares em contratos que Nicolás Maduro prometeu a Moscou em troca de armas, dólares e “serviços”.

Prigozhin administra também uma fábrica de trolls muito ativa para interferir na campanha presidencial dos EUA. Seu histórico é de um ex-gângster condenado em 1981 a 9 anos de prisão por roubo, fraude e participação em uma rede de prostituição de menores.

Na gíria da Internet, “troll” ou “trol” é um agente cujo comportamento tende sistematicamente a desestabilizar uma discussão e a provocar e enfurecer as pessoas.

O termo provém da expressão trolling for suckers (“lançando a isca aos trouxas”).

As “fábricas de trolls” visam desestabilizar um adversário, ou espalhar falsas notícias, com campanhas sistemáticas e massivas de “guerra da informação” pela Internet.

A organização mercenária de Prigozhin é financiada com um contrato de mão beijada de Putin pelo valor de US $ 1 bilhão para abastecer as cantinas escolares e militares do país.

Seu nome surge sempre quando se procura o cérebro das centrais de “trolls” destinadas a inundar as redes sociais com notícias falsas e prejudicar a reputação dos adversários.

Wagner na Venezuela.
Wagner na Venezuela.
Nas fábricas de “trolls” do "cozinheiro chefe" de Putin, trabalham quase 500 pessoas, diz "Le Point".

Seu auge foi a interferência na campanha presidencial do democrata americana. Agora estaria muito ativa visando incitar as revoltas no Chile, Equador, Colômbia, Bolívia, escreveu o ABC de Madri.

Teria enviado homens e armas em quantidade para desencadear um caos na Argentina caso o candidato peronista Alberto Fernández não tivesse sido eleito.

O chefe interino da diplomacia americana para a América Latina, Michael Kozak, garantiu que os EUA identificaram mensagens nas redes sociais para estimular as manifestações no Chile provenientes de “perfis falsos” gerados na Rússia, difundiu MSN Notícias.


Vitaly Bespalov ex-empregado da "fábrica de trolls" conta como funcionava antes de mudar de endereço





domingo, 10 de novembro de 2019

A Suécia se arma em face da atividade naval russa

Submarino nuclear russo teria afundado em águas suecas
Submarino nuclear russo teria afundado em águas suecas
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Tida outrora como modelo de pacifismo e neutralidade face à Rússia, hoje a Suécia mudou e se embarcou num vasto programa de rearmamento.

Ela quer dissuadir aventuras do Kremlin. Em setembro anunciou uma taxa bancária para financiar um aumento de 35% em seu orçamento militar de 2022 a 2025, chegando ao equivalente a US$ 7,7 bilhões (R$ 32 bilhões), ou 1,5% do Produto Interno Bruto do país, informou reportagem da Folha de S.Paulo.

A Marinha reativou o quartel-general de Muskö, enorme instalação subterrânea da Guerra Fria capaz de suportar ataques nucleares.

“Nossa realidade estratégica mudou”, disse o ministro da Defesa, Peter Hulqvist, no lançamento do caça Saab Gripen na versão para o Brasil.

A Força Aérea Sueca encomendou mais 60 unidades desse avião de combate. A decisão foi apoiada pela oposição.

O temor oficial é tanto que, em 2018, o governo distribuiu panfletos a todos os suecos com orientações em caso de invasão estrangeira, fato que não acontecia desde 1961.

Saab Gripen, força aérea sueca encomendou mais 60 unidades
Saab Gripen, força aérea sueca encomendou mais 60 unidades
Abrigos nucleares foram reativados, e em 2017 o alistamento militar voltou a ser obrigatório.

Foi militarizada a estratégica ilha de Gotlândia, no Báltico, alvo tático primário em caso de conflito entre Rússia e Ocidente.

“Isso tudo é paranoia para trazer mais tropas contra o oeste da Rússia”, tentou revidar Mikhail Barabanov, analista militar russo do Centro de Análises de Estratégias e Tecnologias.

A Suécia não está na Otan e se fosse agredida por Moscou, os aliados não teriam obrigação de defende-la.

Mikhail Saakashvili, presidente da Geórgia na guerra com a Rússia de 2008, disse à “Folha de São Paulo” que a Suécia é o país nórdico mais exposto.

Saakashvili anteviu a tomada da Crimeia pelo Kremlin em 2014 e a guerra civil no leste ucraniano quando poucos acreditavam nisso.

Mikael Hölmstrom, do jornal Dagens Nyheter lembra que o oba-oba do fim da Guerra Fria em 1991 relaxou os políticos suecos, “e isso foi ingênuo”.

Nos anos 1990, as Forças Armadas caíram de 850 mil homens disponíveis para os atuais 50 mil, 30 mil deles em serviço ativo. O gasto com defesa caiu de 2,5% do PIB em 1988 para o 1% de hoje.

O Exército perdeu 93% de suas unidades e equipamento, a Força Aérea, 85%, e a Marinha, 72%.

“A guerra não pode mais ser excluída”, afirmou o Comitê de Defesa do Parlamento.

Uma nova geração de submarinos nucleares russos, da classe do desastrado Kursk,
visa recuperar o poder soviético no Atlântico Norte
A Suécia voltou a apostar no poderio aéreo e está lançando novos submarinos, estreitou a cooperação com a Otan, e participou do maior exercício militar da aliança em décadas que engajou 50 mil homens perto da fronteiriça Noruega.

O território russo mais próximo é Kaliningrado, encrave entre Polônia e Lituânia, que possui sistemas antiaéreos e de mísseis.

Moscou propagandeia que eles podem “fechar” boa parte do espaço aéreo do Báltico, mas segundo estudo da Agência Sueca de Pesquisa de Defesa, isso é relativo.

Em 2013, dois bombardeios escoltados por quatro caças russos voaram direto para Estocolmo, e só para voltar no limite das águas territoriais.

Foi um teste-simulação de um ataque nuclear.

A Rússia não fica quieta e lançou o maior exercício de submarinos no Atlântico Norte desde o fim da Guerra fria, denunciou o Estado maior norueguês.

Uma dezena de submarinos, oito deles nucleares, partiram da península de Kola, para manobras que deviam durar dois meses, segundo a televisão pública NRK, citada pela revista francesa “L’Express”.

“Há intensa atividade no Atlântico Norte”, disse o porta-voz do Estado maior norueguês Brynjar Stordal. A Rússia está conduzindo a mais vasta operação de submarinos “desde a Guerra Fria em termos de recursos engajados simultaneamente”, acrescentou.

Os submarinos russos tentam penetrar o mais longe possível sem serem percebidos no oceano pelo oeste da Groenlândia.

O submarino B-534 Nizhniy Novgorod da classe Sierra
O submarino B-534 Nizhniy Novgorod da classe Sierra
Tentam provar sua capacidade para ameaçar a costa leste dos EUA.

As autoridades russas não comunicam essas operações. A Frota do Norte apenas informou que os submarinos nucleares Nijni Novgorod e Pskov, praticaram “imersões profundas para testar certos equipamentos e armas” em águas neutrais do mar da Noruega.

São submergíveis do tipo Kondor que podem lançar mísseis de cruzeiro capazes de detectar e destruir grupes aeronavais inimigos.

Os russos consideram os porta-aviões americanos como maiores adversários no mar, explicou o site “The National Interest”.

Num conflito, esses porta-aviões podem frustrar as tentativas russas de interromper os comboios que levem reforços pelo Atlântico, bombardear a frota russa do Norte e suas bases no Círculo Ártico, além de devastar com bombas atômicas a costa da Federação presidida por Putin.

Outrora, a estratégia soviética visou construir os maiores submarinos jamais feitos, muito pesadamente armados.

Foram planejados vinte, mas só treze saíram dos estaleiros até o desastre do K-141 Kursk, que afundou o 15 de agosto do ano 2000 após explosão registrada pela Noruega como abalo sísmico, perecendo toda a sua tripulação.

A Rússia nunca explicou a morte cruel a que entregou os sobreviventes do acidente do Kursk
Moscou não explicou a morte cruel que deu aos sobreviventes do acidente do Kursk
O inquérito russo não foi convincente e tampouco as teorias conspiratórias.

O mais provável é que o estopim fosse um acidente, banal resultado de um erro químico, segundo “The National Interest”.

Mas, a incógnita perdura. Por que o governo russo não informou da catástrofe e impediu que os ocidentais agissem em tempo para salvar parte da tripulação?

Ficou demonstrado que uma parte dela refugiada em compartimento anti-naufrágio poderia ter sido salva pelos ocidentais, tendo sido ineficaz a tecnologia russa planejada para um evento desses.

Se o acidente do Kursk tivesse acontecido em meio a uma crise poderia ter sido o estopim de uma escalada que nos teria jogado na guerra.

É uma lição que inspira graves preocupações e poderia se repetir no momento atual. Há rumores não confirmados de um submarino russo desaparecido recentemente em águas nórdicas. E a Suécia está se preparando.


terça-feira, 5 de novembro de 2019

Cardeal Casimiro Swiatek: o “homem de lenda”
que não será esquecido

Cardeal Casimiro Swiatek da Bielorússia
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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O Cardeal Casimiro Swiatek da Bielorússia morreu em Minsk a 21 de julho do 2011 com 96 anos de idade, engrossando a legião dos mártires do comunismo.

O Cardeal Swiatek nasceu em Valga (atual Estônia), e naquela época parte do Império Russo, em 21 de outubro de 1914.

Estudou no seminário de Pinsk (Bielorrússia) e foi ordenado sacerdote em 8 de abril de 1939

Seu sucessor e atual Metropolita de Minsk-Mohilev, Dom Tadeusz Kondrusiewicz, lembrou na homilia do funeral que sendo jovem sacerdote, o cardeal foi preso pelo Exército Vermelho e condenado à morte. Mas foi salvo pelos populares.

Em seguida, foi novamente preso e condenado a dois anos no campo de concentração de Mariinsk (Sibéria) e sete no de Vorkuta, no Ártico, onde foi forçado a trabalhar nas minas.

Cardeal Casimiro Swiatek da Bielorússia
Naquele ambiente hostil, ele celebrava secreta e heroicamente a Missa para os fiéis católicos que sofriam a iníqua pena e tinham diante de si a perspectiva da morte por extremos maus tratos.

Em 29 de outubro de 1990, a mais alta voz do Vaticano o chamou de “o homem da lenda.”

Em 1991 recebeu a sagração episcopal e em 1994 foi feito cardeal.

Em 2004, ganhou o prêmio de “Testemunha da Fé”, e João Paulo II disse a respeito dele:

“A Providência chamou a caminhar o caminho da cruz de perseguição e de solidariedade com a paixão do povo cristão que lhe foi confiada, trazendo em primeira mão a cruz de prisão, da condenação injusta, dos campos de trabalho com suas cargas de fadiga, frio, fome. “

Bento XVI recordou “a testemunha corajosa de Cristo e sua Igreja em tempos particularmente difíceis, bem como o entusiasmo derramou mais tarde, contribuindo para o caminho do renascimento espiritual deste país.”

“O Ocidente sabia e não fez nada”

O jornalista Giacomo Galeazzi lembrou que, no diário de seu cativeiro, o futuro cardeal descreveu o tremendo drama daqueles católicos esquecidos até pelos seus irmãos na Fé, mas protegidos pela mão de Deus:

“O Ocidente sabia, mas não interveio. E nós nos sentimos abandonados e desamparados”.

A Agência ACI, num despacho de 24 de julho, reproduziu suas terríveis palavras alusivas também ao clero que no Ocidente procurava se tornar amigo dos perseguidores comunistas:

“Sim, nós éramos chamamos de Igreja do silêncio e muitos no Ocidente achavam que já não existíamos”.

O herói da Fé faleceu em 21 de julho de 2011 e foi enterrado no dia 25 na catedral de Pinsk que ele próprio restaurou.

“Descanse na paz o servo bom e fiel”, conclui então a revista Ecclesia Digital.

Em verdade merece o elogio evangélico de “servo bom e fiel” porque foi herói contra o Leviatã comunista diante do qual tantos e tantos eclesiásticos e leigos se aviltam hoje procurando acordos radicalmente opostos, embora disfarçados, da Igreja Católica com regimes marxistas, explícitos ou dissimulados.