domingo, 26 de março de 2023

Rússia irada com os erros de seus líderes

Ofensiva mal feita em Vuledar. Em poucos dias a Rússia perdeu 130 blindados e teve milhares de baixas
Ofensiva mal feita em Vuledar.
Em poucos dias a Rússia perdeu 130 blindados e teve milhares de baixas
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







A julgar por relatos de oficiais ucranianos e ocidentais, de soldados russos capturados e blogueiros militares russos, e pelas imagens de satélite e vídeo, a campanha russa está sendo vítima de sua disfunção no campo de batalha, escreveu o “The New York Times”.

Moscou enviou como reforços muitos milhares de recrutas inexperientes, sem obter progresso no campo de batalha.

O secretário de Defesa britânico, Ben Wallace, disse à BBC que “97% do exército russo está na Ucrânia”. E o Pentágono estima que cerca de 80% das forças terrestres da Rússia estão engajadas na aventura bélica de Putin.

Na recente ofensiva russa em Vugledar, na frente leste de Donetsk e na frente sul de Zaporizhia, os comandantes russos cometeram erros básicos, observa o coronel Oleksii Dmytrashkivskyi, porta-voz do exército ucraniano.

Ele acrescentou que em Vugledar, duas brigadas de elite da infantaria naval russa, a 40ª e a 155ª, foram dizimadas. Numa semana de combates, os russos perderam pelo menos 130 veículos blindados, incluindo 36 tanques.

O cálculo foi corroborado por imagens de drones submetidas a analistas militares independentes, e  confirmado pelas contas de blogueiros militares russos, ardentes defensores da guerra, mas também críticos raivosos do desempenho dos comandantes russos.

A cólera dos blogueiros russos entusiastas da guerra quase não tem limites contra os responsáveis de tocar a invasão, vendo nos vídeos os erros cometidos com táticas obsoletas da II Guerra Mundial.

Wallace, o secretário de Defesa britânico, citou relatos de que em Vugledar “toda uma brigada russa foi efetivamente eliminada” e que Moscou havia perdido “1.000 homens em dois dias”.

Milhares de soldados russos preferem se entregar até via celular
Milhares de soldados russos preferem se entregar até via celular
Segundo Wallace as perdas russas em Vugledar são o resultado “de um presidente e funcionários que negam ou ignoram a realidade, ou não se importam com quantos de seus compatriotas morreram, muito menos com quantas pessoas eles tente subjugar.”

Muitos soldados russos capturados foram mobilizados pelo recrutamento de 300.000 reservistas, ou ditos tais, anunciado por Putin em setembro de 2022, enquanto outros são mercenários do Grupo Wagner, muitos deles criminosos recrutados nas prisões.

Para piorar, uma rivalidade feroz tomou conta das forças de Wagner e o exército regular russo.

O grupo mercenário alega – aliás mentindo sem senso da realidade – que seus combatentes são mais capazes e experientes.

Depois de meses de ataques implacáveis os ucranianos se encontram em uma situação cada vez mais precária, numa Bakhmut em ruínas.

O Grupo Wagner anuncia há meses que tomou a cidade, mas quase não progride além das periferias sacrificando milhares de presos comuns enviados sem preparo ao matadouro e com agentes especiais assassinando aos que não avançam.

Para renovar a confiança no líder Vladimir Putin, a Zona Cinza, canal do Grupo Wagner no Telegram, pede que os comandantes russos sejam responsabilizados em julgamento público.

No momento, diz o coronel ucraniano Dmytrashkivskyi, os ataques em larga escala diminuíram, e os russos continuam atacando em pequenos grupos.

Mas se persistirem com essa tática, “eles vão para a morte certa, é simples assim”, disse o porta-voz militar ucraniano.


domingo, 12 de março de 2023

Putin suprime grupo de estudo dos crimes comunistas

Aleksandr Podrabinek, membro do Moscow Helsinki Group arrestado pela KGB na era soviética
Aleksandr Podrabinek, membro do Moscow Helsinki Group arrestado pela KGB na era soviética
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







A ONG mais antiga pela defesa dos direitos humanos na Rússia foi dissolvida por um tribunal enquanto Putin se esforça para reprimir os dissidentes e impedir que se revelem os crimes da era comunista.

O Tribunal da Cidade de Moscou ordenou a dissolução do Moscow Helsinki Watch Group, a mais antiga ONG de direitos humanos no país.

A interdição é parte de uma repressão generalizada das últimas grandes vozes críticas da era soviética, enquanto Putin se orgulha de conservar sua carteirinha de membro do Partido Comunista da URSS.

A Justiça russa obedeceu a ordem vinda de cima: “atendeu ao pedido do (...) Ministério da Justiça da Rússia” ordenando tirar a ONG do registro oficial das associações.

Putin retomou os métodos da velha KGB
Putin retomou os métodos da velha KGB
A ordem foi publicada pelo próprio Tribunal em comunicado no Telegram e foi citada pela agência “Euronews”.

O Ministério da Justiça dispôs “dissolver o Moscow Helsinki Watch Group e proibir suas atividades em território russo”, acusando-o de realizar atividades fora de Moscou, em violação de seu status regional, incluindo o envio de observadores a julgamentos ou de seus membros a eventos em outras partes do país.

“Espero viver até ao dia em que renasça o Moscow Helsinki Watch Group”, afirmou sem muita esperança o advogado Genri Reznik, citado pela agência russa Ria Novosti.

O Moscow Helsinki Watch Group foi criado em 1976 para garantir o cumprimento pela URSS de seus compromissos de direitos humanos, assumidos na Ata Final de Helsinque em 1975, no final da Conferência sobre Segurança e Cooperação na Europa.

A ONG foi liderada por décadas por Lioudmila Alexeeva, uma figura da dissidência soviética que morreu em 2018.

Ditadura do Kremlin reprime partidários da democracia
Ditadura do Kremlin reprime partidários da democracia
O procedimento contra o Moscow Helsinki Group lembra aquele que levou, no inverno passado, à dissolução da ONG Memorial, outro pilar da defesa dos direitos humanos e da memória das vítimas dos crimes soviéticos.

Após a invasão da Ucrânia, Putin acelerou a repressão aos seus críticos, multiplicando os suicídios suspeitos, fechando as mídias que não fazem coro de suas mentiras, e fechando qualquer grupo não submisso.

Entre essas normas ditatoriais, uma lei prevê até 15 anos de prisão para quem emitir expressões ou difundir informações sobre o exército russo que o regime rotula “falsas”.

A maioria das figuras da oposição está agora no exílio ou na prisão e quem responder a uma sondagem de forma não aprobatória do regime pode ser punido com dita lei.


domingo, 5 de março de 2023

Moscou pensa se desligar da Internet

Russos sentem a forca da censura de Putin apertar mais e mais
Russos sentem a forca da censura de Putin apertar mais e mais
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs








Moscou avalia desconectar o país da Internet global, segundo o jornal russo Kommersant reproduzido por Le Figaro. O Kremlin aduziria se tratar de uma reação defensiva constrangida pelas sanções ocidentais à invasão da Ucrânia.  

Mas, de fato, há anos vem cogitando uma nova rede com códigos incompatíveis aos usados no mundo. 

Assim a polícia política isolaria os usuários russos e lhes impediria acessar informações de outros países.

A China planeja o mesmo isolamento informático, porém com um método próprio. De momento, na China vigora a “Grande Muralha digital” que censura toda palavra, conceito ou informação proibida pelo regime, por exemplo ‘democracia’, ‘direito humano’, notícias não gratas aos ditadores e muitas outras informações que a ditadura não quer que circulem.

O corte da Internet com o resto do mundo acentuará a repressão já existente
O corte da Internet com o resto do mundo acentuará a repressão já existente
Segundo a mídia russa, o Kremlin realizou exercícios de segurança cibernética, envolvendo bancos nacionais, operadoras de telecomunicações, as maiores empresas de Internet.

O vice-primeiro-ministro Dmitry Chernychenko justifica dizendo que em 2022 o número de ataques cibernéticos no país aumentou 80%.

A operadora Rostelecom traçou o plano de desconexão. “Se a Rússia for cortada dos pontos de troca europeus, ela redirecionará o tráfego da Internet para a Ásia”, disse um especialista da empresa ao Kommersant. Leia-se a China onde o projeto está mais avançado.

A internet “soberana” foi várias vezes mencionada por Vladimir Putin, com um intuito repressor sobre redes sociais como Twitter e Instagram. Por toda a Rússia se acentua o temor de um maior arrocho estatal sobre dados pessoais e liberdades individuais.

Para os russos Putin está levantando um novo 'Telão de Aço' digital
Para os russos Putin está levantando um novo 'Telão de Aço' digital
As sanções ocidentais e a proliferação de ataques cibernéticos – aliás, dos quais a Rússia é a máxima plataforma – serviriam de pretextos perfeitos para os amos do Kremlin que diriam querer proteger os sites estatais.

Todos os sites, especialmente os de serviços públicos, tiveram que se submeter a crescentes imposições, como mudar para um domínio russo, abandonar a hospedagem no exterior ou fortalecer sua política de senhas.

Os sites que contornam essas novas regras arriscam penalidades de momento mínimas (multa de 5.000 rublos, ou cerca de 83 euros).

A desconexão da Internet da rede russa iria além de suas fronteiras. Os especialistas apontam que “o tráfego do Cazaquistão e algumas partes dos países asiáticos passa pela Federação Russa”, também seriam afetados. Eles ficariam ‘submetidos’ ao sistema russo, para regozijo de Moscou.