domingo, 5 de abril de 2020

Bispo romeno lembrou mártires do comunismo, mas Sínodo não se incomodou

Dom Virgil Bercea, bispo de Oradea, Romenia
Dom Virgil Bercea, bispo de Oradea, Romenia
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs








Durante o Sínodo geral realizado em Roma sobre o Oriente Médio, Dom Virgil Bercea, bispo de Oradea Mare, na Romênia, lembrou o sangue vertido pelos mártires sob o regime comunista soviético pelo fato de se professar a fé em Jesus Cristo, noticiou em seu momento a Rádio Vaticana.

A reação episcopal e vaticana foi de todo oposta à manifestada pelos bispos no Sínodo Pan-amazônico onde se mencionou com insistência asubversivos mortos em episódios escuros sem fazer a devida distinção dos fatos criminosos.

“De 1948 em diante os cárceres da Romênia estavam cheios”, disse o prelado à própria Radio Vaticana.

“Os comunistas quiseram destruir a Igreja e os intelectuais para controlar tudo. Essas pessoas deram a vida por Cristo.

“Os comunistas procuraram pretextos para acusá-los, mas não acharam. A grande culpa deles era de serem católicos. Há ainda pessoas vivas que conheceram isso”, explicou.

Ele acrescentou que esses mártires “por toda parte eram modelares, até conseguiram moderar o comportamento dos guardas que antes os aterrorizavam. (…)

“Morreram por amor de Cristo, sem arrogância, mas com humildade e com a paz no coração, com serenidade, convencidos de que com seu comportamento iriam atrair a vida e a esperança.

Repressão em Bucarest, 1989, Romênia
Repressão em Bucarest, 1989, Romênia
“Sim, naqueles momentos em que os comunistas haviam conseguido transformar nosso país num grande cárcere do qual ninguém teria podido sair, havia uma grande necessidade de esperança.

“Quando meus pais obtiveram o primeiro rádio, conseguimos ouvir a Missa da Rádio Vaticano.

“Minha mãe pôs uma Cruz sobre o rádio e vieram muitas pessoas até a nossa casa, e nós nos sentíamos diante do rádio como diante de um altar.

“No início da liturgia, ficávamos todos em pé; durante o Evangelho – segundo nosso costume – nos ajoelhávamos. Obviamente, não podíamos comungar, não tínhamos sacerdote, mas todos usavam as roupas de domingo.

“Simultaneamente, nossos mártires estavam detrás das grades. Estávamos unidos pela oração: suas orações na prisão e as nossas puxadas pela Rádio Vaticano. Um tio meu que depois foi Cardeal passou 16 anos no cárcere.

“Quando ele voltou com os cabelos raspados a zero e os olhos esbugalhados, fiquei impressionado com a sua personalidade!

“Media 1,85m, mas o mantiveram durante três anos numa cela de um metro por um metro e cinquenta, devendo passar o dia todo de pé. Esses mártires estavam expostos ao frio de até -30°…

Dom Virgil Bercea, bispo de Oradea, Romenia
Dom Virgil Bercea, bispo de Oradea, Romenia
“Estas coisas ainda falam, são transmitidas: o sangue dos mártires é semente para o nascimento de novos cristãos”.

O Sínodo, entretanto, concentrou-se no tema do ecumenismo.

Ele relembrou o espírito e a atitude dos padres do Concilio Vaticano II, iniciado 50 anos antes.

Eles preferiram não condenar o comunismo nem os regimes que martirizavam tão cruelmente os católicos enquanto abriam otimista e imprudentemente os braços aos carrascos.

As corajosas e emocionantes palavras de Dom Virgil Bercea não foram em vão.

Ficaram registradas no Livro da Vida e um dia servirão para julgar todos os crimes do comunismo e todas as omissões e cumplicidades que ele encontrou no Ocidente.


domingo, 29 de março de 2020

A história do menino que sonhava em ser sacerdote
sob a perseguição comunista

Dom Sviatoslav Shevchuk, Primaz do rito greco-católico,
o maior dos ritos orientais da Igreja Católica
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




Em entrevista para a Catholic Radio and Television Network, o Arcebispo-mor de Kiev-Galícia e de toda a Rússia, Dom Sviatoslav Shevchuk, Primaz do Rito greco-católico na Ucrânia, fez reveladoras confidências sobre sua formação eclesiástica acontecida sob o socialismo soviético. “Zenit”.

O rito greco-católico é o maior dos ritos orientais da Igreja Católica: mais de 10 milhões de fiéis, incluindo a Ucrânia e a diáspora. Cerca de meio milhão deles reside no Brasil, especialmente no Paraná e em Santa Catarina.

Dom Sviatoslav explicou que cresceu numa sociedade totalmente ateia. Na escola “nos ensinavam que Deus não existia”. Só a família transmitia a fé crista.

O jovem arcebispo disse que a primeira vez que viu um padre foi por ocasião de um enterro.

“O sacerdote veio na calada da noite para celebrar o funeral e depois desapareceu velozmente. Como menino, fiquei curioso de saber quem era o sacerdote e o que estava fazendo. Eu entrevia nele um reflexo da presença de Cristo”.

“Esse sacerdote tinha estado duas vezes no cárcere por praticar seu ministério e através dele descobri verdadeiramente Alguém e alguma coisa pela qual vale a pena dar a própria vida”.

Foi assim que o futuro bispo decidiu ir para o seminário. Mas não tinha nada a ver com os seminários atuais.

A entrevista abaixo foi concedida quando Dom Sviatoslav era administrador apostólico da eparquia (diocese) de rito ucraniano em Buenos Aires. Foi concedida à associação "Ajuda à Igreja Necessitada" e tem a vantagem de estar dublada em português:


Funcionava assim: “O sacerdote que encontrei também era reitor do seminário secreto, clandestino. Para mim, foi a descoberta de um mundo completamente novo.

“Meu modo de estudar era bem estranho. Raramente encontrava meus professores do seminário – pelo menos uma vez cada dois meses.

“Quando os encontrava, davam-me sempre um livro, que tinha de copiar e estudar durante dois meses. Assim começou minha formação sacerdotal!

“Nem minha mãe nem meu pai estavam ao corrente. Se eu fosse descoberto pela polícia secreta, minha mãe, que era professora de música, e meu pai, que era engenheiro, teriam perdido o trabalho.

“Muitas pessoas na Ucrânia que foram descobertas acabaram detrás das grades ou no exílio.

“Graças a Deus não aconteceu nada. Para mim e para meu plano de me tornar sacerdote, a Mãe de Deus tinha que destruir a União Soviética.

“Eu me lembro que rezava: é impossível para os homens destruir o mal, mas para Deus nada é impossível.

Missa clandestina num bosque na Ucrânia sob governo comunista
Missa clandestina num bosque na Ucrânia sob governo comunista
“A Sagrada Eucaristia era o ponto central da nossa vida.

“Lembro-me de um sacerdote que encontrei certa vez: ele jamais falava muito dos sofrimentos, das perseguições e das torturas; ele me contava que certas vezes na prisão todos os sacerdotes celebravam a liturgia.

“Nós ficávamos pasmos: como é que isso era possível? De onde vinham o cálice e a patena?

“Ele tirou os óculos e disse: ‘Eis o que nós usávamos: uma lente servia de cálice com uma gota de vinho, e na outra, que servia como patena, púnhamos um pedacinho de pão. Assim nós celebramos a liturgia na prisão ou nos campos de concentração”.

O atual arcebispo Sviatoslav participou pela primeira vez de uma missa no ano 1991, quando acabava de servir como conscrito no Exército Soviético.

Quando ele entrou no Exército Vermelho toda a vida religiosa acontecia em segredo, mas ao sair a União Soviética estava caindo. Ele assistia à divina Liturgia na igreja de sua cidade natal de Strait, na Ucrânia.

“Era maravilhoso, sentia-me como no céu! A liturgia bizantina de São João Crisóstomo é um símbolo da liturgia celeste”, exclamou.

Dom Sviatoslav explicou que “o comunismo destruiu a nossa sociedade e que só por meio da graça do Espirito Santo é que a Igreja pode curar essas feridas.

“Durante a ex-União Soviética era perigoso ser cristão. Hoje na Europa o importante é não ter medo de ser cristão, ainda quando isso pareça não ser ‘conveniente’”.

Só o heroísmo na Fé – como o de Dom Sviatoslav e o de tantos outros sacerdotes e bispos que padeceram e até morreram sob a opressão comunista – leva à vitória os verdadeiros filhos da Igreja Católica.



domingo, 22 de março de 2020

Putin, o “espírito de Munique”
e a tragédia prevista em Fátima

 Milicianos da 'República Popular de Donetsk' beijam ícone de Putin. Um cristianismo adulterado posto a serviço de uma ambição anticristã.
 Milicianos da 'República Popular de Donetsk' beijam ícone de Putin.
Um cristianismo adulterado posto a serviço de uma ambição anticristã.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs








Vladimir Putin “brinca com fogo” no leste da Europa, registrou para a História o filósofo francês Bernard-Henri Lévy para o “The New York Times”.

Lévy criou a imagem de pensador radical da esquerda chique, não podendo ser tido como um conservador ou direitista.

Na teoria, Lévy não está tão longe do pensamento que justifica Putin, porém na prática está espantado com os crimes que estão sendo cometidos até com ar de "cristianismo" pelo chefe do Kremlin.

E pela covardia do Ocidente face à arrogância do chefe que aspira a ser "czar" da "nova Rússia" com uma reforma da Constituição.
Para Lévy, Putin “mobilizou os piores elementos existentes na região: criminosos, ladrões, estupradores, ex-presidiários e vândalos e os transformou numa força paramilitar”.

Os comandantes que executam as instruções de Putin devem matar ou afugentar intelectuais, jornalistas e autoridades morais nas regiões ocupadas pelas "milícias" e "voluntários", acrescenta o filósofo.

Lévy, entretanto omite a perseguição anticatólica e contra todo religioso não submisso ao Patriarcado de Moscou

Para Lévy, as milícias separatistas pró-russas constituem um exército de agitadores que toma conta e destrói prédios públicos, hospitais, escolas e prefeituras do país que pretende liberar.

Segundo o autor, Putin permitiu a consolidação de “uma verdadeira guerra de gangues”.

Em certa medida ele não as controla plenamente, pois umas se voltaram contra as outras numa anarquia que faz pensar nos piores momentos do caos feudal.

Mercenários em estado de ebriedade se gabam de matar ucranianos
Mercenários em estado de ebriedade se gabam de matar ucranianos
“É um mundo do crime soturno, sem estrutura ou disciplina, de baderneiros indômitos que só conhecem a lei da selva e constituem um novo estilo de tropa sem uma mínima ideia da guerra, cujas leis, Deus é testemunha, desconhecem em absoluto.

“A essa coleção heterogênea o presidente Putin entregou um arsenal aterrador com o qual esses soldados amadores não estavam familiarizados e com o qual vêm brincando como crianças com fogos de artifício.

“A Rússia distribuiu grandes quantidades de armamento pesado aos separatistas e os treinou para utilizar o sistema de mísseis SA-11, do gênero que se acredita ter sido empregado para derrubar o voo MH 17 da Malaysia Airlines”.

Lévy tenta imaginar a gangue vitoriosa comemorando seu triunfo com um fundo de restos fumegantes e cadáveres de crianças e turistas.

E a consternação dos oficiais russos destinados pelo Kremlin para supervisionar esses mísseis,  quando o autoproclamado ministro da Defesa da República de Donetsk se atribuiu a responsabilidade de abater um avião militar ucraniano que acabou sendo o voo comercial civil MH-17 da Malaysia Airlines.

Fivela de mercenário pró-Putin
Fivela de mercenário pró-Putin
O filósofo verbera com paixão a atitude dos pró-russos que deixaram os corpos das vítimas abandonados nos campos ou amontoados em vagões mal refrigerados, que exportaram para a Rússia partes possivelmente comprometedoras, e pilharam os objetos de valor dos corpos das vítimas.

Quando escreveu isso, Lévy não pensava na América Latina e no quanto certas gangues e/ou organizações criminosas de narcotraficantes ou de ideologias socialo-progressistas estão predispostas a tentar em nossos países análogas ‘proezas’ anárquicas seguindo o modelo de Putin

Para o filósofo, em todo caso estamos diante de crimes contra a humanidade, resultantes de uma estratégia de guerra nova promovida pelo chefe máximo do Kremlin.

Em face dessa ofensiva que faz do crime organizado uma tropa de choque regular, o autor francês acena para a obrigação moral de tirar as consequências.

Lévy aponta sinais desalentadores de claudicação na União Europeia diante do comandante da imoral ofensiva russa.

Para ele, a atitude de apaziguamento, de condescendência e até bajulação de certos representantes europeus em face de Putin, se chama “espírito de Munique”.

Charmberlain, Daladier, Hitler, Mussonlini e Ciano  após a assinatura do Acordo de Munique.  Falso espírito de paz preludiou a pior das guerras.  Obama e a UE parecem optar por análoga entrega.
Charmberlain, Daladier, Hitler, Mussonlini e Ciano
após a assinatura do Acordo de Munique.
Falso espírito de paz preludiou a pior das guerras.
Obama e a UE parecem optar por análoga entrega diante de Putin.
O mesmo espírito que, em 1938, preludiou a imensa tragédia da II Guerra Mundial.

Para ele, esse espírito é um estigma.

Estigma, acrescentamos, que atrai horizontes sombrios como os de 1938 sobre os países liderados por populistas enamorados de Putin.

Esse horizonte apavorante pode ser concluído com base na história humana. Mas, se considerarmos a dimensão moral dos movimentos presentes diante de Deus, o que dizer?

Os terríveis horizontes para os quais Nossa Senhora acenou em Fátima e o papel que neles teria a Rússia revolucionária, fazem com que a ‘manobra Putin’ ganhe toda a sua dimensão.


domingo, 15 de março de 2020

Cresce o risco de III Guerra Mundial

Embaixador Sérgio Duarte mais perto da guerra mundial do que nunca
Embaixador Sérgio Duarte: mais perto da guerra nuclear do que nunca
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







O conflito atômico mundial que parecia afastado há 50 anos, quando entrou em vigor o TNP (Tratado de Não Proliferação Nuclear), hoje está mais perto do que se poderia imaginar.

Assim declarou em entrevista por email à “Folha de S.Paulo”, o embaixador Sérgio Duarte, 85, que foi o presidente da sétima revisão quinquenal do TNP, em 2005, e de 2007 até sua aposentadoria, em 2012, foi o alto representante das Nações Unidas para Assuntos de Desarmamento.

“Não há dúvida de que nos tempos de hoje o mundo é mais perigoso do que em qualquer época desde o início da era nuclear”, disse Duarte que preside em Belo Horizonte a ONG internacional Conferências Pugwash, receptora do Nobel da Paz de 1995 por seus esforços em prol do desarmamento nuclear.

Em 2019, os EUA abandonaram um dos principais acordos de limitação de armas nucleares do fim da Guerra Fria após a Rússia ostentar repetidamente que estava fabricando armas atômicas de uma capacidade destrutiva inaudita.

O presidente Trump revidou com o anúncio da fabricação de novas bombas atômicas menos potentes, porém mais empregáveis.

A Coreia do Norte continua produzindo, testando e esbravejando, com resultados até ridículos, mas que bem podem servir de estopim universal.

E o Irã causa calafrios no mundo tendo ficado claro que seus propósitos de desnuclearização não podem ser levados a sério ou são mera tapeação para esconder objetivos sinistros.

Em 2020 os EUA e a Rússia devem decidir se prolongam o maior tratado de limitação de arsenais global, o Novo Start, que vence em 2021.






Todos os nove possuidores de armas nucleares, sem exceção, vêm aumentando seus arsenais ou acrescentando novas tecnologias destruidoras, como mísseis várias vezes mais velozes que o som, uso de técnicas cibernéticas, lasers, inteligência artificial e outras inovações, numa verdadeira proliferação tecnológica”, afirmou o embaixador Sérgio Duarte.

Americanos e russos têm 92% das ogivas do mundo, respectivamente 1.750 e 1.650 prontas para uso. Isso fora um estoque de 8.130 bombas operacionais que podem ser reativadas.

Ainda possuem armas nucleares os rivais Índia e Paquistão, China, França, Reino Unido, Coreia do Norte e Israel —que faz disso um segredo de polichinelo útil no xadrez do Oriente Médio, escreveu a “Folha”.

 Míssil 'hipersônico' 'Tsirkon' que Putin garantiu estar desenvolvendo
 Míssil 'hipersônico' 'Tsirkon' que Putin garantiu estar desenvolvendo
O embaixador observou que o Novo Start, sempre foi vago no quesito desarmamento. “A única cláusula não produziu resultados satisfatórios, ao contrário, os países nucleares vêm aperfeiçoando seu poder”, explicou.

O TPAN (Tratado de Proibição de Armas Nucleares), de 2017, não está em vigor porque as potências atômicas e as candidatas a serem não querem ratifica-lo.

O Brasil foi pioneiro com a antiga rival Argentina, é signatário do TNP e do TPAN, e um regime de confiança mútua está instaurado.

Mesmo assim, o país se recusa a assinar o Protocolo Adicional ao TNP, de 1997, que prevê inspeções internacionais. Os EUA tentam convence-lo, mas sem sucesso inclusive sob o governo Bolsonaro.

“Nenhum instrumento no campo da não proliferação nuclear até hoje logrou adesão universal”, sublinhou Duarte.

Ele falou das “profundas divergências e à rivalidade, desconfiança e hostilidade entre EUA e Rússia”.

“Os arsenais existentes são suficientes para inviabilizar completamente a civilização humana caso sejam utilizados, por desígnio ou acidente”, resumiu o embaixador.

Esse tenso fundo da questão contradiz as aparências da era da “morte do comunismo”. Por isso, para os espíritos melhor informados, fatos que seriam vistos como menores podem mexer com um potencial de devastação universal.

O 'Yantar' no porto do Rio
O 'Yantar' no porto do Rio
Foi o caso do Yantar, navio russo de pesquisa e inteligência suspeito de espionagem na Europa e nos Estados Unidos, que a Marinha brasileira monitorou durante uma semana.

O Centro Integrado de Segurança Marítima do Rio de Janeiro detectou a embarcação de tecnologia avançada de sensores, dentro da Zona Econômica Exclusiva (ZEE) do Brasil em fevereiro, segundo noticiou “O Estado de S.Paulo”.

Feito o primeiro contato, o navio sumiu do monitoramento, levantando a hipótese de que o equipamento AIS, que permite a sua localização, tenha sido desligado.

Por fim, um helicóptero da Marinha e um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) localizaram a embarcação a 80 quilômetros das praias do Rio.

A tripulação russa ou não atendia às chamadas ou respondia com evasivas, enquanto trabalhava numa área de cabos submarinos de internet. Acabou atracando no porto do Rio, onde ficou poucos dias e partiu.

O que mais intrigou as autoridades náuticas foi o fato de a embarcação, “reaparecer” perto dos cabos submarinos de comunicação que ligam o Brasil a outros países, após ficar por quase uma semana com o seu aparelho identificador desligado.

Com sensores de alta tecnologia para rastrear o fundo do mar, o navio oceanográfico Yantar sempre esteve na mira de governos. A Rússia repete que o navio de 5.700 toneladas e 108 metros atua em pesquisas científicas e em ajuda a outros países.

O Yantar anunciou que cooperaria na localização do submarino argentino desaparecido “San Juan”. A mídia exultou comemorando que então sim o submarino perdido seria encontrado. Nada disso, depois de recolher os dados que procurava retornou a Rússia, sem dizer nada.

Esquema de funcionamento do Yantar
Esquema de funcionamento do Yantar
A marinha britânica o considera um “navio espião” e os EUA suspeitam que os pequenos submarinos do Yantar operam especialmente no rastreamento de áreas de cabos submarinos.

E o Yantar ouve e vê tudo até 6 mil metros de profundidade porque pode lançar dois minissubmarinos de 25 toneladas da classe Konsul capazes de descer até esses abismos.

Os cabos submarinos respondem por 99% das comunicações transoceânicas e 97% das conexões de internet entre os servidores do mundo.

Uma ruptura desses cabos pode não apenas causar danos gravíssimos à economia global, como deixar países inteiros sem acesso à internet.

Relatório de 2019 do Real Instituto de Serviços para Estudos da Defesa, citado pelo “O Estado de S.Paulo”, revela que os navios de inteligência da Rússia “perambulam discretamente por áreas estratégicas o tempo todo em todo o mundo”. 

Um atrito com suspeitadas operações de sabotagem ou espionagem com um navio provocador desses, ou alguma fricção armada com as incursões aéreas russas mirando Ocidente que publicamos periodicamente no nosso blog, poderia servir de pretexto à má vontade para ativar o potencial nuclear.

É uma das espadas de Dámocles que pairam sobre o mundo.


domingo, 8 de março de 2020

“Valores familiares” de Putin incluem assassinato, diz neto de antigo presidente do PC dos EUA

O advogado Sergei Magnitsky foi sequestrado e assassinado porque denunciou esquema de corrupção no Kremlin.
O advogado Sergueï Leonidovich Magnitski foi sequestrado e assassinado
porque denunciou esquema de corrupção no Kremlin.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






O empresário Bill Browder, que chegou a dirigir na Rússia o fundo de investimento Hermitage Capital Management, declarou já hái anos no programa “60 Minutes” da TV CBS que:
“o regime russo é um regime criminoso. Estamos lidando com um país nuclear dirigido por uma gangue de bandidos como a Máfia”.

Browder disse isso numa entrevista a Cliff Kincaid, diretor do Accuracy in Media Center for Investigative Journalism (Centro de Jornalismo Investigativo de ‘Acuidade na Mídia’), grupo independente sediado em Bethesda, Maryland, EUA.

Accuracy in Media analisa a objetividade das notícias veiculadas nos órgãos do macrocapitalismo publicitário e a veracidade das declarações publicadas.

Na entrevista, Browder manifestou seu espanto com o engano de certos conservadores que acreditam que Vladimir Putin seja um defensor dos valores familiares.
Se você quer falar de valores familiares, vai falar com a família Magnitsky sobre o que aconteceu com sua família em consequência da maldade de Vladimir Putin”, disse.
De fato, Sergei Magnitsky, advogado da firma de Browder na Rússia, foi sequestrado e assassinado pelas autoridades em 2009. Ele tinha revelado um esquema de corrupção no Kremlin que desviou um total de $230 milhões de dólares.

Browder disse que muita gente acha que Putin é bom porque “ignora o fato de que ele é um frio assassino que mata por dinheiro...”

O avô de Browder foi chefe do Partido Comunista dos EUA e o neto quis investir na Rússia assim que acreditou ter uma oportunidade.

Sergueï Leonidovich Magnitski:
seu assassinato pelos 'serviços' do Kremlin ainda faz falar Ocidente.
Porém, ficou estarrecido quando o caso de Magnitsky evidenciou de modo concreto como Putin e seu grupo de ex-policiais da KGB estavam saqueando o país e consolidando seu poder.

Segundo Browder, Putin age na base de um “princípio da Máfia”: “tirar o máximo de dinheiro possível do Estado e ficar no poder segurando esse dinheiro”.

A invasão da Ucrânia soou em 2014 como alerta de que não se pode confiar no Kremlin. Era para ter ficado alerta antes, agora que entrou vai ser difícil tirar.

Moscou havia assinado um acordo com os EUA para garantir a integridade territorial do país, a Crimeia incluída. Mas agora o Leste ucraniano está invadido, Putin enrola e não sai.

Na Ucrânia, Putin teve um semelhante no presidente filo-comunista Viktor Yanukovych, que praticou os mesmos abusos e viveu nos mesmos luxos espalhafatosos e crapulosos até fugir.

Browder concorda que o estilo soviético de controle e da desinformação fazem parte do plano.

Como Putin controla a maioria das fontes de informação dentro da Rússia e está enforcando a Internet ainda ficam raras janelas de liberdade de expressão. Mas pessoas se perguntam o que ele vai fazer para acabar enforcando-as, acrescentou o empresário.

A respeito das afirmações de que a fortuna de Putin atingiria algo como 70 bilhões de dólares, Browder apenas responde: “Ouvi números maiores do que estes”.

William 'Bill' F. Browder, em Davos 2011. Neto de presidente do Partido Comunista dos EUA não quer voltar a Russia pois teme ser assassinado.
William 'Bill' F. Browder, em Davos 2011.
Neto de presidente do Partido Comunista dos EUA
não quer retornar à Rússia pois teme ser assassinado.
Enquanto investidor na Rússia, Browder participava regularmente dos encontros do U.S.-Russia Forum, em Washington e Moscou.

Mas como Browder começou a criticar os desmandos do Kremlin, foi expulso do país em 2005, seus escritórios foram devassados em 2007, e seu advogado Magnitsky desapareceu em 2008, sendo assassinado em 2009.

Browder disse conversar com muitos homens de negócios no Foro Econômico de Davos, na Suíça, e que o 90% deles não pretendem investir mais na Rússia porque temem que lhes aconteça o mesmo.

Não faz sentido investir na Rússia quando há a possibilidade real de acabar morto. Não há direito de propriedade, não há direitos legais, não há regras”, explicou.

As pessoas não estão bem informadas sobre o que acontece na Rússia e agem com base no que elas querem que a Rússia seja em lugar do que ela realmente é. Infelizmente, a verdade sobre a Rússia é muitíssimo ruim”, acrescentou.

O Congresso americano aprovou a Sergei Magnitsky Rule of Law Accountability Act em 2012, uma lei que faz represálias econômicas e de vistos contra os agentes envolvidos no caso de Magnitsky ou acusados de abusos contra os direitos das pessoas.

Mas a lei precisa ser implementada, e isso não é do gosto de muitos funcionários altamente posicionados em Washington, e secretamente muito mais próximos de Vladimir Putin do que parece à primeira vista.


domingo, 1 de março de 2020

Teia de sicários russos enreda Europa

Yevgeny Prigozhin, o irritadiço e mafioso 'chefe da cozinha' de Putin, escolhe os mercenários e os 'trolls'
Yevgeny Prigozhin, o irritadiço e mafioso 'chefe da cozinha' de Putin,
escolhe os mercenários e os 'trolls'
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Em dezembro/19, o jornal francês “Le Monde” revelou que pelo menos 15 espiões russos, da Unidade 29155 da Direção Geral do Estado-Maior General das Forças Armadas da Federação Russa (GRU), estavam usando a região alpina francesa da Haute-Savoie, como base logística para tarefas secretas, incluindo assassinatos e sabotagens, repercutiu o Eurasia Daily Monitor, da The Jamestown Foundation.

Concomitante a isso, autoridades alemãs divulgaram que agentes russos estavam ligados ao assassinato de Zelimkhan Khangoshvili, um ex-comandante rebelde da Chechênia, morto em Berlim, em agosto, com três tiros disparados em pleno dia, por arma com silenciador, num parque de Berlim. O suspeito preso teria chegado da França, acrescentou “Le Monde”.

A Alemanha acusou o governo russo de relutância em cooperar na investigação do assassinato, sendo dois diplomatas que trabalhavam para a GRU na embaixada russa de Berlim declarados personae non gratae.

Cinco meses depois, o opositor checheno Imran Aliev foi morto a facadas num hotel de Lille, noticiou a Agência France Presse (AFP) citada pelo mesmo “Le Monde”.

Ele foi um blogueiro muito crítico do regime pro-Putin de seu país, parte da Federação Russa.

Costumava postar sob o pseudônimo Mansur Staryi, no Facebook e no YouTube, críticas muito fortes ao autoritário dirigente russo.

No dia 17 de novembro do ano passado, um vídeo publicado no YouTube mostra o diplomata russo Georgiy Kleban dando dinheiro a um oficial sérvio em Belgrado.

É prática comum da GRU manter uma ou duas pessoas entre os adidos militares de cada embaixada russa. Suas tarefas incluem contatos com círculos políticos e militares do estado anfitrião.

O envenenamento de Sergei V. Skripal na Grã-Bretanha acelerou a descoberta da Unidade 29155
O envenenamento de Sergei V. Skripal na Grã-Bretanha
acelerou a descoberta da Unidade 29155
A Agência de Inteligência de Segurança da Sérvia (BIA) expressou profunda insatisfação com o fato de a inteligência russa usar a capital sérvia como plataforma para inúmeras operações especiais em outros países europeus.

Grande número de nacionalistas sérvios radicais, supostamente conservadores ou identitários foram treinados por instrutores da GRU no leste ucraniano ocupado por separatistas filo-russos, segundo a Deutsche Welle.

Já o Ministério Público búlgaro denunciou que o primeiro secretário da embaixada russa em Sofia fez reuniões secretas com cidadãos búlgaros, incluindo um alto funcionário com acesso a informações classificadas da Bulgária, da União Europeia e da OTAN visando ações contra o Ocidente.

Os serviços de inteligência russos instalaram dispositivos de escuta do porão ao telhado do hotel cinco estrelas Marinela, em Sofia, que foi utilizado por líderes europeus na capital búlgara.

O proprietário do hotel, Vetko Arabadjiev, foi agente do serviço secreto búlgaro na era soviética, e hoje é próximo do Partido Socialista Búlgaro, apoiado por Moscou.

A Rússia também visava usar seu esquadrão de assassinos móveis da Unidade 29155 para eliminar o traficante de armas búlgaro Emilian Gebrev.

Uma série de investigações conjuntas apontou que pelo menos oito agentes da GRU tentaram envenenar Gebrev, seu filho e o diretor de sua empresa.

Os matadores dispunham de um veneno da família “Novichok”, que é exclusividade da GRU, também empregado contra o ex-agente Skripal e sua filha no Reino Unido.

Por sua vez, a Catalunha é a região europeia onde mais opera a Unidade 29155, ou “esquadrão móvel” da GRU.

O traficante de armas Emilian Gebrev sobreviveu a tentativa de assassinato em Sofia, Bulgária
O traficante de armas Emilian Gebrev
sobreviveu a tentativa de assassinato em Sofia, Bulgária
Em 2017, foi identificado um “rastro russo” no movimento pró-independência da Catalunha. Em novembro, o Supremo Tribunal da Espanha investigou o envolvimento de um espião russo para desestabilizar a Espanha nas vésperas do referendo na Catalunha.

Ele agia sob o falso nome de “Sergey Fedotov” e esteve envolvido em tentativas de assassinato em todo o continente europeu.

Em outubro, o Serviço de Informações de Segurança da República Checa (BIS) divulgou a existência de uma rede que dependia do Serviço Federal de Segurança da Rússia (FSB, a “KGB de Putin”) e era financiada pela embaixada russa em Praga.

A tarefa dessa rede consistia em ataques cibernéticos contra alvos na República Checa e seus aliados.

Apesar de o governo russo negar o seu envolvimento na enxurrada de escândalos de espionagem que pulularam por toda a Europa nos últimos meses, ficou muito claro que tais desmentidos de Moscou não apresentam credibilidade alguma, diz o Eurasia Daily Monitor.

Com efeito, a rede de inteligência da Rússia trabalha para minar a coesão interna e a unidade dos países europeus.


domingo, 23 de fevereiro de 2020

Hiroshima e Chernobyl: dois pesos e duas medidas

Hiroshima, depois da bomba
Hiroshima, depois da bomba
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs








Comemora-se em agosto o 75º aniversário do lutuoso uso da primeira bomba nuclear na II Guerra Mundial.

Em 6 de agosto de 1945, o bombardeiro B-29 americano Enola Gay despejou a primeira bomba nuclear sobre a cidade japonesa de Hiroshima, causando a morte de por volta de 70.000 pessoas, além de incontáveis feridos.

Hoje, Hiroshima é uma cidade moderna, pujante e próspera, onde a vida progride com vigor, tendo virtualmente desaparecido os vestígios de radiação nuclear.

Outro calamitoso episódio também envolveu a energia nuclear. Ele aconteceu no dia 26 de abril de 1986 na central atômica soviética de Chernobyl, a 100 quilômetros no norte de Kiev, capital da Ucrânia.

Naquela data ainda era território russo e a usina estava sob a jurisdição direta das autoridades centrais da União Soviética.

Hiroshima, hoje
Hiroshima, hoje
Entre ambos os desastres passaram décadas de diferença, mas hoje se pode viver bem e tranquilo em Hiroshima, enquanto que em Chernobyl e redondezas a radiação queima os que se aproximam.

Segundo os responsáveis russos, a explosão do reator só produziu a morte de dois empregados, e mais 29 nos três meses seguintes.

Na verdade, nunca se saberá o número exato de mortes provocadas pela radioatividade que se espalhou por boa parte da Ucrânia, Europa Central e Europa Ocidental.

O reator está hoje no epicentro de uma zona de exclusão de 30 quilômetros de raio. 160.000 pessoas foram evacuadas e os níveis de radioatividade nas redondezas superam centenas de vezes o máximo permitido.

Chernobyl hoje: tudo teve que ser abandonado de urgência e ficou como estava.
Chernobyl hoje: tudo teve que ser abandonado de urgência e ficou como estava.
Como se explica essa disparidade de situações?

O site Gizmodo, resumido por La Nación, identificou três razões decisivas.

1) A bomba de Hiroshima levava 6,3 quilos de plutônio. No reator 4 de Chernobyl havia 180 toneladas de combustível nuclear, das quais 2% (3.600 quilos) eram urânio puro e a explosão liberou sete toneladas do combustível (e 200 quilos de urânio).

2) Em Hiroshima, segundo a Fundação para a Investigação dos Efeitos da Radiação (RERF), a explosão deu-se na altura e só 10% do plutônio da bomba entraram em fissão. A própria explosão evaporou os 90% restantes, que foram dispersos pelos ventos.

O estouro de Chernobyl aconteceu em nível do solo e foi muito mais eficaz na sinistra hora de disseminar isótopos radioativos. O incêndio posterior evaporou os materiais, que foram espalhados em doses maciças.

Chernobyl: em áreas críticas só com proteção anti-radiação e não demorando muito.
Chernobyl: em áreas críticas só com proteção anti-radiação e não demorando muito.
3) A bomba de Hiroshima teve uma potência equivalente a 21.000 toneladas de TNT. Mas em que pese esse imenso poder destrutivo, só 10% da radiação foram de nêutrons, ou eficazmente radioativas.

O resto foram raios gama, letais no momento, mas que não deixam impronta no local ou nos objetos. Hoje há áreas do mundo com maior radiação natural do que Hiroshima.

Em sentido contrário, os isótopos de Chernobyl impregnaram num prazo de dias as redondezas com doses que ainda hoje continuam letais. Em alguns locais, a radiação é 100 vezes maior que em Hiroshima.

A usina foi desativada em 2.000. Será preciso aguardar 900 anos para que o ser humano possa voltar a habitar a zona.

Da bomba de Hiroshima se fala muito. E se compreende perfeitamente.

Da brilhante recuperação de Hiroshima se fala pouco. E não se entende essa omissão.

Da catástrofe de Chernobyl, imensamente mais danosa para o meio ambiente, fala-se pouco ou de modo leviano. E isso não se entende mesmo. Chega-se até a promover roteiros turísticos nas redondezas.

Chernobyl hoje e uma cidade abandonada.
Chernobyl hoje e uma cidade abandonada.
Porém, essas singularidades têm uma explicação.

Quando algo serve para falar mal da ordem ocidental – no caso, dos EUA – a mídia e os figurantes políticos e religiosos de viés esquerdista carregam o tom, como se dá com a bomba de Hiroshima.

Quando algo fala positivamente da ordem ocidental, como a recuperação de Hiroshima, essa turma se interessa pouco ou mal.

Quando algo fala mal do socialismo ou do comunismo, como o caso de Chernobyl, a mesma turma faz todo o silêncio possível.

Dois pesos e duas medidas para desmoralizar o mundo não comunista e poupar o inferno socialista-comunista.


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Rússia esbanja agressividade e visa expansionismo

Navio russo hostiliza o USS Farragut.
Navio russo hostiliza o USS Farragut.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






No início de janeiro do corrente [2020], um navio de guerra russo “abordou agressivamente” o destroier USS Farragut, da Marinha americana, que operava no Mar da Arábia do Norte.

A unidade russa ignorou os avisos do navio dos EUA arriscando um acidente, afirmou nota da V Frota, noticiou “The Epoch Times”.

O Farragut emitiu o sinal marítimo internacional de risco de colisão, tendo solicitado ao navio russo mudança de rumo, obedecendo as regras internacionais.


O navio russo inicialmente se recusou, mas acabou alterando o rumo, não sem antes fazer manobras agressivas com risco de colisão.

A Marinha americana publicou vídeos demonstrando a desnecessária e agressiva aproximação.

Segundo a CNN, o Farragut faz parte do grupo de porta-aviões USS Harry S. Truman e tem a tarefa de interceptar navios inimigos em potencial para que não se aproximem do porta-aviões.

As Forças Armadas russas costumam praticar esse tipo de aproximações a fim de testar a capacidade de resistência e técnicas dissuasivas de adversários ocidentais, além de treinar o seu potencial agressivo.

O incidente foi mais um exemplo de encostamentos hostis que não se concretizam em choques, como nos tempos da Guerra Fria.

As autoridades americanas as julgam pelo menos imprudentes.

A hostilização aconteceu cerca de sete meses após outro incidente no Pacífico entre navios dos EUA e da Rússia.

As naves norte-americanas precisaram fazer manobras de emergência para evitar colisões.

F-22 interceptam bombardeiros nucleares TU-160 e caças russos na costa do Alasca
F-22 interceptam bombardeiros nucleares TU-160 e caças russos na costa do Alasca
Em agosto (2019), a Rússia confirmou o envio de bombardeiros com capacidade nuclear para as proximidades do Alasca, que a Rússia reivindica como próprio, e que a propaganda eleitoral putinista prometeu recuperar.

O Ministério da Defesa do Kremlin deu o pretexto de uma rotina de treinamento de “dois porta-mísseis estratégicos Tu-160” que testaram um “voo de mais de oito horas, percorrendo mais de 6 mil quilômetros.”

A Rússia também prepara o primeiro de três navios quebra-gelo movidos a energia nuclear.

Foi batizado de Ural, e construído em São Petersburgo, segundo informou a coluna “Mar sem fim” de OESP.

O Kremlin prepara os maiores e mais poderosos quebra-gelos do mundo para consolidar sua hegemonia na possível intensificação do tráfego comercial no Mar do Norte.

Como foi observado pelos cientistas mais objetivos, o Ártico está passando pela parte do rotineiro ciclo de 70 anos, em que o degelo reduz a camada flutuante de gelo à sua menor expressão.

Contrariamente ao alarmismo ecologista, tal degelo não eleva o nível dos mares e ainda favorece a navegação comercial em grande parte do Ártico, com óbvios benefícios para os países.

Cfr. Ignorância ou fraude nos exageros ambientalistas sobre o derretimento do Ártico?

Novas estruturas estão sendo construídas pela Rússia, além de modernizar seus portos com o objetivo de tornar a força predominante no tráfego da Rota do Mar do Norte (NSR).

Essa rota é cobiçada repetidamente desde o século XV. No século XIX, a Marinha Britânica fez diversas expedições para definir a denominada Passagem Noroeste.

“O Ural, juntamente com seus irmãos, é fundamental para o nosso projeto estratégico de abertura do NSR à atividade durante todo o ano”, disse Alexey Likhachev, executivo-chefe da Rosatom, empresa estatal de energia nuclear da Rússia.

O 'Ural'
Likhachev atribuiu a Putin a ideia de construir o quebra-gelos para fortalecer a presença de Moscou no Ártico.

Por sua vez, Putin afirmou que frota russa do Ártico operaria pelo menos 13 quebra-gelo pesados em 2035, nove dos quais seriam movidos por reatores nucleares.

O Ártico tem reservas de petróleo e gás equivalentes a 412 bilhões de barris de petróleo, quer dizer cerca de 22% do petróleo e gás ainda não descobertos no mundo, estima o US Geological Survey.

De acordo com o site National Interest, a Rússia já lançou ao mar o quebra-gelos Arktika, o maior do mundo e o primeiro de uma série de mais cinco para renovar sua força atual de seis quebra-gelos pesados. O navio estaria em fase de testes.

A Guarda Costeira dos EUA parece estar atrasada na corrida, tendo encomendado em abril de 2019 o primeiro quebra-gelo pesado em quatro décadas.

E a Rússia quer mais. O site NavalNews.net informa que alocou US$ 2 bilhões para construir um quebra-gelo nuclear de alta tecnologia que manterá o Ártico desimpedido para o transporte durante o ano todo.

Será o projeto mais caro da história da construção naval russa. O nome do navio será “Líder”, e será maior e mais aerodinâmico dos que já encomendados.

Com este “Titanic” e sua frota complementar, Moscou espera administrar uma artéria marítima de 6.000 quilômetros de gelo entre a Europa e a Ásia que rivalize estrategicamente com o Canal de Suez.


domingo, 9 de fevereiro de 2020

Putin "czar": monarquia espúria na Rússia

Putin um czar espúrio para desmoralizar a saudade da monarquia no povo russo
Putin: um czar espúrio para desmoralizar
a saudade da monarquia no povo russo
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







Parece piada, mas o diretor de cinema russo Slava Tsukerman ficou impressionado com a quantidade de apelos circulando na Internet na Rússia em favor de “Putin Czar”, segundo reconheceu em Real Reporting.org.

A propaganda aparece acompanhada de abundantes arranjos fotográficos de qualidade.

Esses não podem provir de um indivíduo isolado ou de algum grupelho excêntrico, mas de uma central com muitos recursos.

O tema – escreveu Tsukerman – se transformou num dos mais falados na mídia russa, em sua imensa maioria nas mãos do regime.

Escritores e jornalistas de há muito apelidaram Putin de Czar mais como sátira ou crítica a seus poderes virtualmente onímodos, sem pensar no velho e mítico sistema monárquico de séculos passados.

Livros e longos artigos foram escritos nessa clave metafórica ou até irônica em jornais como “The New York Times” ou “Politico Magazine”, sem nunca pensar numa coroação do ex-coronel da KGB.

Mas, nos últimos meses, a hipótese virou de tom 180º e passou a ser levada muito a sério.

No canal televisivo governamental “Rússia”, o metropolita Hilarion, chefe das relações exteriores do Patriarcado de Moscou e um dos mais influentes líderes da Igreja Ortodoxa Russa declarou:

“A forma monárquica de governo tem vantagens sobre o sistema eleitoral e foi positivamente testada na História [...].

“Minha opinião pessoal é de que um homem ungido pelo clero e que recebe não apenas um mandato dos eleitores para um cargo por um determinado período, esse homem pode ser sagrado pelo seu próprio reino por meio da Igreja.

“Ele pode receber um mandato para toda a vida, até que transfira o poder para o herdeiro.

O metropolita Hilarion, portavoz do Patriarcado de Moscou confirmou que estariam dispostos a sagrá-lo 'czar'
O metropolita Hilarion, porta-voz do Patriarcado de Moscou
confirmou que esse estaria disposto a sagrá-lo 'czar'
“Esta, é claro, é a forma de governo que se provou na História e que tem muitas vantagens sobre quaisquer outras formas de governo baseadas na eleição”.

A interpretação do público foi unânime: o metropolita falava de Putin, que se reelegeu na última eleição presidencial, mas que não poderá voltar a ser reeleito em 2024 porque a Constituição o impede. Então, é claro, a Constituição precisa ser mudada!

Putin está no poder desde o ano 2000 (computando o período intermediário de seu secretário Dmitri Medvedev), mas não contente em continuar como governante supremo, ele quer também ser vitalício. Como consegui-lo?

Alexander Prokhanov, diretor do jornal de extrema-direita “Zavtgra” (“Amanhã”), que combina ultranacionalismo e comunismo, é autor de mais de 30 novelas e atualmente um dos escritores mais populares da Rússia.

Ele teria tido uma conversão política ouvindo as palavras do metropolita Hilarion (risum teneatis!) e passou de inimigo agressivo do governo de Putin a um de seus mais ativos apoiadores. Ele comentou:

“O padre Hilarion fez uma declaração muito importante [...] que não foi feita por acaso e sem motivos. Foi feita no momento certo e para o grande público.

“O que está por trás? [...] A igreja é o berço no qual o bebê da nova monarquia russa está crescendo”.

Prokhanov atribui dois motivos ao posicionamento do metropolita.

Primeiro, é a sempre crescente influência do Patriarcado de Moscou não só no povo russo, mas também na política externa do país.

O escritor sublinha o enorme efeito que teve a veneração pública das relíquias de São Nicolau de Bari.

A romaria atraiu a Moscou centenas de milhares de pessoas, mas nas cidades russas elas teriam sido milhões, pessoas na sua maioria aparentemente sem religião após quase sete décadas de ateísmo soviético.

As relíquias do santo padroeiro da Rússia foram emprestadas pelo Papa Francisco, pois elas ficam em Bari, na Itália, após marinheiros da cidade resgatá-las da ameaça maometana na Ásia Menor no primeiro milênio.

Putin no lugar do czar Pedro I, o Grande
Putin no lugar do czar Pedro I, o Grande
Segundo Prokhanov, as multidões de romeiros que formam filas colossais para entrar na catedral “professam o sonho da monarquia”.

O segundo motivo é dar continuidade a Vladimir Putin como chefe supremo.

Prokhanov explica o que parece ser mais um script redigido por outrem em benefício desse mesmo outrem:

“Quem pode se tornar o arauto da nova dinastia russa? Não pode ser uma pessoa eleita por acaso.

Não pode ser um representante de uma família nobre, ou de uma família distinta, ou da elite de hoje, ou alguém que o dedo do Patriarca apontará.

“Deve ser uma pessoa especial, marcada com um sinal especial, um mistério.

“E essa pessoa é Vladimir Putin.

“Ele disse que, com o retorno da Crimeia à Rússia, o cetro sagrado do governo russo havia retornado à Rússia.

“Ele tinha em mente Chersonese [cidade da Crimeia onde foi batizado na Igreja Católica São Vladimir, Príncipe de Kiev].

“Esse ato mágico e milagroso, místico, transferiu a santidade de Cristo para o estado russo.

“E a Crimeia, retornada à Rússia por Putin, transferiu essa santidade para o estado de Putin.

“Por esse ato, Putin carregava em suas mãos a fonte de misteriosa luz mística para a Rússia, o Kremlin, seu escritório, seus palácios.

“Ele foi escolhido para esse fim. Ele confirmou esta eleição. Ele se tornou ungido de uma forma muito especial.

“Ele não foi sagrado pelo Patriarca, sua unção não ocorreu na Catedral da Assunção, seu casamento com o reino não foi realizado na confluência dos chefes da Igreja.

“Aconteceu de uma maneira mística, misteriosa, quando a fonte de luz da Criméia Chersonese voltou para a Rússia em suas mãos.

“Ele se levantou com esta tocha, que o ilumina com uma luz misteriosa. Portanto, em círculos próximos ao patriarcado, em círculos conscientes da complexidade da restauração da monarquia na Rússia, seu nome como o possível primeiro monarca russo da dinastia Putin é cada vez mais citado”.

O Patriarcado de Moscou fará o que Putin mandar
O Patriarcado de Moscou fará o que Putin mandar
O popular comentarista político Stanislav Belkovsky, tido como democrata, admitiu inesperadamente que agora adere ao ponto de vista monárquico e considera com entusiasmo as palavras do metropolita Hilarion de uma “monarquia reconciliada com o Patriarcado”.

Ivan Artsishevsky, representante da Associação da Família Romanov (dos últimos czares da Rússia), ficou surpreso ouvindo representantes da Igreja Ortodoxa Russa falando de monarquismo.

O professor da Academia Teológica de São Petersburgo, arcipreste George Mitrofanov, falou dos perigos de restaurar a monarquia na Rússia atual. Mas o historiador Sergei Vivatenko defendeu as vantagens que haveria em reinstalá-la.

O comentário mais sóbrio, na opinião do diretor de cinema Slava Tsukerman, foi o do líder do Partido Monarquista Russo, Anton Bakov.

Bakov ressaltou que não há necessidade de perguntar à sociedade sobre a monarquia, porque alguém provavelmente tomará essa decisão de qualquer maneira.

Ele não disse quem poderia ser essa pessoa. Talvez não goste dela e descreveu essa tomada de decisão como um gesto despótico.

E assim deixou insinuado o nome que está na boca de todos.


domingo, 2 de fevereiro de 2020

Rússia testa sua Cortina de Fogo desconectando-se da Internet

Com a nova rede os russos ficariam presos numa Cortina não de Ferro mas digital
Com a nova rede os russos ficariam presos numa Cortina não de Ferro mas digital
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs








Enquanto o mundo celebrava o Natal, o Kremlin comemorava como sucesso ter conseguido desconectar o país inteiro da rede global da Internet.

O pretexto foi “testar a efetividade da Runet, um projeto para criar uma infraestrutura que mantenha em funcionamento a rede caso sofra uma ameaça global”, noticiou “Clarín” de Buenos Aires.

Os testes demoraram vários dias e foram conduzidos por organismos do Estado, fornecedores locais de serviços, empresas de Internet russas, mas não outras.

O vice-ministro russo das Comunicações, Alexey Sokolov, falou de exercícios para capacitar os operadores russos a “responder de forma efetiva a riscos e ameaças externas”.

A Rússia tenta há anos montar um sistema de algoritmos que permita à sua rede funcionar de modo totalmente incompatível com a rede mundial, ficando inacessível desde fora.

Moscou vinha promovendo seu projeto junto a países “amigos” em competição com o sistema chinês – apelidado “Grande Muralha de Fogo” –, utilizado por Pequim para censurar as comunicações de seus cidadãos dentro e fora da China.

O sistema chinês exige um verdadeiro exército – fala-se em mais de cem mil homens – dedicado a espionar e cortar as mensagens dos chineses que se desviem da linguagem ou ‘novilíngua’ socialista oficial.