quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Exército de comentaristas fantasmas russos
age na Internet – 1

Na rua  Savushkina nº 55, em São Petersburgo, sem identificação externa funciona a sede da 'fábrica de trolls'.
Na rua  Savushkina nº 55, em São Petersburgo,
sem identificação externa funciona a sede da 'fábrica de trolls'.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




Era um segredo de Polichinelo, mas não tinha sido demonstrado. Pelo menos até hoje.

Um exército mercenário de comentaristas russos baseado em São Petersburgo age dissimuladamente na Internet para espalhar os pontos de vista de Vladimir Putin por trás de milhares de pseudônimos.

A sede central da já famosa Internet Research Agency, pelo seu nome inglês, fica num apagado bairro no norte de São Petersburgo.

O semanário Moi Region e o jornal investigativo Novaya Gazeta conseguiram obter dados diretamente de um ex-membro do grupo.

A unidade se dedica à produção diária de milhares de comentários em redes sociais, sites, blogs, além de artigos e posts de acordo com vozes de ordem ditadas pelo Kremlin para cada caso.

A matéria foi desvendada por Global Voices online, entre outros.

Na gíria da Internet essa atividade é denominada “troll”. O termo “designa uma pessoa cujo comportamento tende sistematicamente a desestabilizar uma discussão e a provocar e enfurecer as pessoas nela envolvidas. O termo (...) deriva da expressão trolling for suckers (lançando a isca aos trouxas)”. Cfr. verbete Troll (internet).



Os trolls usam artimanhas diversas. Entre elas:

Entrada da rua Savushkina 55, quartel central do exército dos 'trolls'
Jogar a isca e sair correndo: consiste em postar uma mensagem incendiária, polêmica, esperando uma grande reação em cadeia, sem se envolver na discussão.

Induzir a baixar o nível: induzem a perder o bom senso na discussão e apelam para baixarias e xingamentos. Com isso, o troll “queima o filme”, consegue que o site, blog ou lista de discussão se desqualifique diante da comunidade por ter descido a um nível tão baixo.

Repetência de falácias: induz à fadiga intelectual, repetindo falácias até que o interlocutor, exausto e derrotado, abandone a discussão.

Desfile intelectual: exibir complicado nível intelectual, vocabulário sofisticado, esmagar com citações os argumentos dos rivais para expô-los ao ridículo como ignorantes. O troll aqui não visa à vitória de uma ideia ou posição, mas desmoralizar alguém que prejudica a linha do Kremlin.

Ludibriar o leitor: com postagens ou comentários usando material de procedência duvidosa ou totalmente falso.

Migrar o tema: desviar-se do foco do cerne da questão para desestabilizar o oponente. Cfr. verbete Troll (internet).

Margarita Simonyan editora da TV Russia Today
foi premiada por Putin pela cobertura
favorável à invasão russa da Crimeia.
As palavras chaves são as mesmas para trolls e mídia oficial.
Andrei Soshnikov, do semanário Moi Region, exibiu uma coleção de documentos e uma entrevista com um ex-empregado do esquema de Vladimir Putin que funciona na rua Savushkina nº 55, em São Petersburgo.

A partir desse local, cerca de 400 funcionários acionam milhares de contas em redes sociais como Twitter, Facebook, Google+, Vkontakt (o Facebook russo), LiveJournal e outras plataformas.

Eles intervêm postando posições estritamente definidas pelo serviço secreto russo, mas diluídas em assuntos apolíticos: moda, fotos, esportes e temas triviais.

A Internet Research Agency impõe regras estritas. Eis as básicas:

Uso OBRIGATÓRIO, nos títulos de posts, comentários, mensagens e outros, das palavras-chaves fornecidas;

uso OBRIGATÓRIO das mesmas palavras-chaves no texto do post, etc.;

uso OBRIGATÓRIO das imagens dos vídeos postados no YouTube, com preferência pelos gerados pelo Departamento Criativo do mesmo órgão russo.

Se estas e ainda outras condições não forem devidamente preenchidas, o agente não receberá o pagamento pelo serviço.

Continua no próximo post: Exército de comentaristas fantasmas russos age na Internet – 2


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