domingo, 6 de setembro de 2015

Exército de comentaristas fantasmas russos
age na Internet – 2

Lyudmila Savchuk trabalhou, colheu documentação e filmou o quartel geral dos 'trolls'
Lyudmila Savchuk trabalhou, colheu documentação
e filmou o quartel geral dos 'trolls'
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




Continuação do post anterior: Exército de comentaristas fantasmas russos age na Internet – 1



Um caso típico de identidade falsa é a de “Natalya Drozdova”, que tem um blog no LiveJournal, contas, páginas e perfis em Twitter, Facebook, Google+ e VKontakt.

O verdadeiro nome do operador é Tatyana Kazakbayeva, segundo os documentos revelados. Ela se apresenta como interessada em “arte, psicologia, e tudo o que acontece no mundo”.

A maioria de seus posts são irrelevantes e ocos.

Mas quando estão em jogo os interesses de seus patrões do Kremlin, “ela” manifesta opiniões habilidosamente estudadas. Por exemplo, após o assassinato de Boris Nemtsov, opositor de Putin, “Natalya Drozdova” seguiu à risca as instruções da Internet Research Agency.



A instrução técnica do dia 28 de fevereiro (2015) ordenava:

“Ideia central: criar a opinião de que oficiais ucranianos estavam envolvidos na morte do oposicionista russo”.

“Natalya” escreveu no mesmo dia um post no LiveJournal, no qual dizia:

“Estou sentada desde hoje cedo lendo sobre as circunstâncias da morte de Nemtsov. Quanto mais leio, mais fico convencida de que ele foi morto para que o povo saia às ruas e faça uma revolução em nosso país”.

Os comentários não devem ser facilmente identificáveis do ponto de vista ideológico para não serem minimizados.

A revista Slate observou que a Internet Research Agency faz circular informações falsas com a aparência de bem documentadas com a finalidade de semear o caos e a confusão.

Em 2014, este vídeo forjado alimentou as histórias dos trolls sobre a 'explosão' de uma petroquímica na Luisiana (EUA)
Em 2014, este vídeo forjado alimentou as histórias dos trolls
sobre a 'explosão' de uma petroquímica na Luisiana (EUA)
Um exemplo típico se deu no dia 11 de setembro de 2014, nos EUA. O Departamento de Segurança Interior americano recebeu um alerta inquietante: fumaças tóxicas estavam saindo de uma petroquímica que pegava fogo na Luisiana.

No Twitter, muitas contas falavam da explosão e difundiam um vídeo em que membros do Estado Islâmico reivindicavam o atentado.

Snapshots mostravam a CNN falando do desastre, mencionavam uma página da enciclopédia Wikipedia sobre a catástrofe e centenas de jornalistas naufragavam em mensagens de texto sobre o evento.

Tudo era falso.

A Internet Research Agency é a “fábrica dos trolls”, escreve Slate. A partir de São Petersburgo ela inunda a Internet com artigos, comentários e tweets anti-ocidentais e pró-Putin.

Três meses depois da falsa explosão na Luisiana, os mesmos trolls espalhavam rumores (com auxílio de vídeos também forjados) sobre um imaginário surto de Ebola em Atlanta e o assassinato pela polícia de uma mulher negra.

O jornalista Adrian Chen, de The New York Times Magazine na Rússia, imergiu no universo de internautas que não cessam de deixar comentários enviesados nos sites das mídias americanas.

Ele observou que os trolls profissionais promoviam uma exposição fotográfica itinerante que fazia uma apologia pró-russa. Ela é intitulada Material Evidence e põe a culpa da guerra na Síria e na Ucrânia nas costas dos EUA. O jornalista encontrou por trás as mesmas contas falsas que soltaram o boato da explosão na petroquímica.

Adrian Chen tentou um encontro com uma das autoras de trolls. Ela só aceitou o encontro se seu irmão estivesse presente. O “irmão” (que de fato não era) apareceu vestido de neonazista, com camiseta e tatuagens de cruzes gamadas.

Alguns dias depois, um site ligado ao Kremlin difundiu as fotos do encontro sob o título “O que tem em comum um jornalista do New York Times com um nazista em São Petersburgo?”

O repórter americano descobriu suas fotos com o “neonazista”, que por sinal é famoso, pois foi preso por assassinato. Mas a empregada da Internet Research Agency não aparecia em nenhuma foto. Foi uma arapuca.

A embaixada britânica em Kiev fez uma guia
para identificar os tanques russos T-72BM lutando na Ucrânia
e dissipar a confusão criada pelos trolls.
A blogosfera russa ficou inundada com essas fotos. Objetivo: desacreditar um americano e tudo o que ele possa vir a escrever em desacordo com a propaganda putinista.

Afinal foi revelada a identidade da jornalista que se fez contratar pela Internet Research Agency, colheu a documentação e até filmou clandestinamente um vídeo do quartel geral dos trolls.

Seu nome é Lyudmila Savchuk. Ela conseguiu que a Justiça trabalhista russa condenasse a Internet Research Agency a pagar-lhe uma multa simbólica pelo fato de tê-la feito trabalhar sem contrato e não ter-lhe honrado os ordenados devidos pelos seus comentários pró-Putin na Internet durante dois meses, noticiou Slate.

A sentença do tribunal saiu em 17 de agosto (2015).

Lyudmila Savchuk não procurava dinheiro, mas queira evidenciar que a existência da nefasta agência fantasma era reconhecida pela própria Justiça russa.

Após o resultado judicial, ela revelou sua identidade. Luydila não obteve o fechamento da Internet Research Agency, como havia pedido ao juiz, mas se regozijou porque, segundo suas palavras, “nós conseguimos provar que na Rússia os ‘trolls’ existem, e esse era o nosso objetivo principal”.

Cenas clandestinas da atividade na "fábrica de trolls" em São Petersburgo:




Um comentário:

  1. Guerra hibrida tb na Siria:

    http://ucrania-mozambique.blogspot.com.br/2015/09/a-2-guerra-hibrida-para-que-russia-vai.html

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