segunda-feira, 9 de julho de 2018

Por trás da Copa da Rússia:
um regime de corrupção e ideologia despótica

O cartaz não e segurado por um torcedor da Rússia, mas da Sérvia. O objetivo visado foi além do esporte
O cartaz não e segurado por um torcedor da Rússia,
mas da Sérvia. O objetivo visado foi além do esporte
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs





Enquanto a Rússia vibrava com uma goleada na estreia da Copa do Mundo, o primeiro-ministro de Putin, Dmitri Medvedev, apresentou no Parlamento, “um pacote de maldades com medidas impopulares, necessárias para fechar as contas públicas”, noticiou “O Globo”.

A reforma da Previdência aumentou para 65 anos a aposentadoria dos homens sendo que eles têm uma expectativa de vida de 62,77 anos, perto da média africana.

O golpe não é novo. É de todos os ditadores de todas as épocas. Reedita a velha fórmula “pão e circo” que surgiu na decadente Roma durante a administração de Caio Graco. A fórmula foi aplicada a fundo pelos perversos imperadores.

E virou o mandamento máximo dos regimes corruptos.

Manter o povo entretido (o “circo”) e lhe dar um pouco de pão para que suporte as arbitrariedades do despotismo. Na Rússia de Putin, a Copa do Mundo foi manobrada ponto por ponto segundo essa perversa “sabedoria”.

Por isso não espanta que Helio Gurovitz no Estadão tenha perguntado se “dá para confiar na Copa do presidente Vladimir Putin”.

“Não bastassem – escreveu ele – as denúncias que pairam sobre a escolha da sede pela FIFA, sobre a construção de estádios e obras de infraestrutura, a Copa da Rússia é agora assombrada pelo espectro da corrupção nos próprios jogos, em especial os do time da casa”.

Os apostadores profissionais ficavam longe dos jogos da seleção russa, disse à TV australiana ABC Mark Philips, diretor da consultoria Global Sport Integrity (GSI).

O que importava era a propaganda de Putin e da Rússia, custe o que custar.

“É importante para ele cimentar a popularidade e reivindicar conquistas”, afirmou Hector Silva Ávalos, da American University, ao site Insight Crime depois da goleada russa sobre a Arábia Saudita.

O escândalo do doping, em 2014, mostrou que Putin não tem pudor em recorrer a fraudes maquiavélicas para atingir seus objetivos.


Perto do doping registrado nas Olimpíadas de inverno em Sochi, comprar um goleiro ou juiz é trivial.

O recurso ao doping científico é metódico na Rússia. Foi herdado de União Soviética e até nisso Putin a imita.

Neste blog tivermos diversas ocasiões de comentar informações sólidas sobre sua massiva utilização.

Confira por exemplo: Esquema estatal russo de doping gera tensões nas Olimpíadas. Ou todos os posts sobre o doping dos atletas russos.


Desta vez, não podia ser menos.

E sem a mais mínima dissimulação.

O médico da seleção russa, Eduard Bezuglov, justificou escancaradamente o uso do amoníaco como estimulante: “isso o fazem milhares de esportistas para se animar. Se utiliza há décadas”, reportou o jornal espanhol “El Mundo”.

Claro que ele não via nisso doping algum.

Mas a seleção russa foi acusada diretamente de se dopar pelo jornal alemão Süddeutsche Zeitung. Os jogadores cheiravam amoníaco antes dos encontros.

O amoníaco não é proibido e multiplica o rendimento físico. A federação russa de futebol admitiu que seus jogadores inalavam durante o jogo com Espanha usando uma bola de algodão.

A World Anti-Doping Agency proíbe apenas a inalação em publico. Mas nem isso aconteceu. Foi escancarado durante o jogo no banco dos suplentes.

O jornal alemão Bild captou imagens suspeitas de futebolistas se esfregando o nariz.

Onde a “nova-URSS” bateu todos os recordes mundiais foi no quesito de corrupção na construção dos estádios e dependências.

Já tivemos ocasião de dar algumas amostras em recente post. Confira: Mundial montado para propaganda da nova-URSS

Ancelmo Gois de “O Globo” ainda lembrou que o estádio Lujniki, palco da abertura da Copa da Rússia, foi erguido em cima das cinzas do antigo Estádio Lenine.

Trilogia da corrupção, e da ideologia?. No Rio, Dilma (Blatter no centro) entrega a preparação da Copa a Putin
Trilogia da corrupção, e da ideologia?.
No Rio, Dilma (Blatter no centro) entrega a preparação da Copa a Putin
Um Vladimir sobre o outro. Segundo o colunista nem dá para saber a dimensão das propinas e corrupções. “Até porque a qualidade da democracia russa no campo das liberdades é, acredite, inferior à nossa”.

Para Mathias Alencastro na “Folha de S.Paulo” “as aventuras militares na Ucrânia e na Síria, a acusação de envolvimento nas eleições americanas e a destruição de um avião comercial conferiram à Rússia a reputação de vândalo da política internacional”.

Putin, como Dilma em 2014, esperava recuperar a imagem. Mas os escândalos da FIFA comprometeram a manobra. “De megaevento de prestígio, a Copa passou a ser vista como uma comunhão de picaretas”, escreveu.

Mas Putin teve cúmplices até entre aqueles que parecem não estar com ele. Os governos ocidentais evitaram a ocasião da Copa para denunciar todas as formas de perseguição que funcionam na Rússia.

Os torcedores que ousassem criticar Putin nos estádios seriam perseguidos. Todo o contrário do Brasil, onde a então presidente Dilma Rousseff foi vaiada de todas as formas.

Demétrio Magnoli em “O Globo” conta que a Arena Baltika, em Kaliningrado, custou US$ 300 milhões e só serviu de palco para quatro jogos. O time local atrai perto de quatro mil torcedores.

Esbanjamento à toa? Não, a justificativa é oficial: a propaganda do chefe supremo, de sua ditadura e de sua máquina de guerra.

Kaliningrado é um enclave russo intensamente militarizado onde sedia a Frota do Báltico desafiando a OTAN.

O elefante branco não tem finalidades esportivas, mas geopolíticas: reforçar o bastião militar contra Ocidente, segundo explicou William Courtney, ex-representante americano em negociações militares com a Rússia.

“A Arena Baltika inspira-se nessa tradição soviética, retomada pelo putinismo. De fato, do ponto de vista da Rússia, toda a ‘Operação Copa’ não se inscreve na lógica dos negócios, mas na da política.

“Putin não acalenta a ingênua expectativa do triunfo esportivo: na Copa, o Kremlin almeja a afirmação do lugar da Rússia entre as grandes potências”, acrescenta Magnoli.

Putin venceu sua Copa antes do jogo inaugural: “normalizando” sua imagem externa, inclusive de violador de fronteiras internacionais na Europa.

Cristiano Ronaldo, Messi, Iniesta, Kroos ou Neymar pelo simples fato de entrar em campo marcavam goleadas na guerra psicológica montada pelo Kremlin para redourar sua imagem, concluiu.
A promoção da presença russa em Kaliningrado é vital na estratégia de guerra
A promoção da presença russa em Kaliningrado é vital na estratégia de guerra
O jogo contra a Espanha, na invadida Crimeia foi uma bofetada à OTAN.

E Sonia Racy no "Estado de S.Paulo" destacou que cada mensagem de Putin estava concebida para exaltar o ego nacionalista em que baseia seu populismo.

Mas não foi só Putin e não foi só corrupção nem só manobras da guerra psicológica. Houve ideologia em jogo.

Até a desmoralizada FIFA contribuiu para engrandecer o ditador do Kremlin e reprimir seus críticos.

O defensor croata Domagoj Vida sofreu o golpe na própria pele. Foi repreendido pela FIFA, pelo fato de agradecer a seus admiradores ucranianos dedicando à Ucrânia a vitória sobre a Rússia, noticiou “La Nación” de Buenos Aires.

Vida jogou muito no Dinamo de Kiev, clube popular no país invadido por Putin, recebeu muitas mensagens e respondeu com um “Glória à Ucrânia!” brado assaz comum no país.

A Comissão de Disciplina da FIFA caiu acima dele em coro com o deputado putinista Dmitry Svischyov.

“Atos desses deveriam ser castigados”, exigiu Dmitry Svischyov, membro do comité parlamentar para Esporte, através da agência oficial RIA Novosti.

Vida respondeu que seu gesto não tinha nada de político mas era mera comemoração esportiva.

Mas na Rússia de Putin não pode se desafinar com o chefe nem em brincadeira ou comemoração. A mais intolerante das ideologias está por trás.



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