quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Esquema estatal russo de doping
gera tensões nas Olimpíadas

Esquema de doping montado pelo Estado russo perturba as Olimpíadas
Esquema de doping montado pelo Estado russo perturba as Olimpíadas
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




A Agência Mundial Antidoping, WADA, concluiu relatório segundo o qual está “além de qualquer dúvida” de que o Ministério do Esporte da Rússia, juntamente com agências e entidades locais, alimentaram um esquema para que atletas não sejam pegos em exames antidoping.

Uma equipe independente, chefiada pelo professor de direito da Western University do Canadá, Richard McLaren, contratada pela WADA, elaborou o documento.

O relatório contém “a revelação do tamanho do controle estatal russo e do laboratório antidoping de Moscou em processar e encobrir amostras de urina de atletas russos de virtualmente todos os esportes antes e depois dos Jogos [Olímpicos de Inverno] de Sochi”, escreveu a “Folha de S.Paulo”.

O documento afirma que “há mais dados a serem analisados futuramente, mas isso não afeta as conclusões do relatório”.

“O autor independente coletou e revisou a maior quantidade de evidência possível em um prazo de 57 dias, estabelecido para este relatório ser concluído”, acrescenta o documento.
O relatório de McLaren lista três descobertas principais:

“Que o laboratório de Moscou, para proteger atletas russos, operou com um sistema à prova de falhas, ditado pelo Estado”;

“Que o laboratório de Sochi operou uma metodologia ímpar de troca de amostras para permitir que atletas russos pudessem competir nos Jogos”;

“Que o Ministério do Esporte dirigiu, controlou e supervisionou a manipulação de resultados analíticos de atletas ou a troca de amostras, com ativa participação e ajuda da FSB (agência de segurança nacional russa, continuadora da KGB), CSP (Centro de Preparação Esportiva) e dos laboratórios de Moscou e Sochi.”



Equipe independente descobriu grande esquema de controle estatal  para trocar amostras de urina de atletas russos e burlar análises.  Foto: Putin nos Jogos Olímpicos de inverno em Sochi, Rússia.
Equipe independente descobriu grande esquema de controle estatal
para trocar amostras de urina de atletas russos e burlar análises.
Foto: Putin nos Jogos Olímpicos de inverno em Sochi, Rússia.
McLaren também disse que “a investigação não identificou uma participação ativa” do Comitê Olímpico da Rússia no esquema. Ele ressaltou, porém, que algumas pessoas envolvidas, ligadas às confederações de esportes, fazem parte do comitê.

Em maio, o ex-diretor do laboratório antidoping de Moscou, Grigory Rodchenkov, afirmou ao “New York Times” que ele obedecia a ordens do governo russo para encobrir casos de doping.

A WADA pediu ao Comitê Olímpico Internacional (COI) que a Rússia fosse totalmente suspensa das Olimpíadas. Mas o COI esquivou a espinhosa questão e delegou a decisão às federações internacionais de cada modalidade esportiva.

O jornal “Le Monde”, de Paris, forneceu informações ainda mais pormenorizadas sobre o funcionamento do esquema oficial russo de burla dos controles antidoping nos Jogos de Sochi.

Enquanto os principais colunistas esportivos do mundo pediam uma sanção exemplar contra a Rússia, a imprensa daquele país, dependente do regime de Putin, deblaterava contra o Ocidente e uma pretensa conspiração “globalista”, segundo compêndio da BBC divulgado pela revista esportiva do jornal espanhol “El Mundo”.

A “Rossiskaya Gazeta” denunciou que por trás de reveladora investigação “há alguém. Não é um relatório, é uma farsa”.

O jornal do governo, “Izvestia”, repetiu a argumentação fornecida pelo Kremlin: uma conspiração nunca bem definida contra os esportistas russos, que seria promovida por grupos políticos e econômicos planetários também nunca citados pelo nome.

Até um jornal de negócios como o RBC teve de adotar o script oficial, acusando o informe McLaren de alvejar deliberadamente a Rússia. Porém, na sua crítica, deixou transparecer a finalidade não esportiva do Kremlin na conquista de medalhas. Aliás, a mesma da velha URSS: “Para nós, participar nos Jogos é algo muito importante. É quase uma guerra, uma demonstração de poder”.

A TV estatal acompanhou o coro oficial, insistindo na suposição de uma conspiração que faz da Rússia “o bode expiatório”.

Como funcionava o esquema russo de acobertamento do doping, segundo a imprensa espanhola.
Como funcionava o esquema russo de acobertamento do doping, segundo a imprensa espanhola.
O jornal de oposição “Vedomisti” reconheceu que “os anelos de Moscou de ganhar a todo custo tinham provocado grande desconfiança”.

Cem atletas russos foram excluídos dos Jogos Olímpicos do Rio, após acórdão do Tribunal Arbitral do Deporte (TAS) ratificar o veto da Federação Internacional de Atletismo (IAAF). A revelação do programa de doping e o ocultamento das provas pelo Kremlin ficaram evidentes.

Além disso, da lista de outros 300 atletas que deveriam chegar ao Rio, cerca de outra centena não pôde viajar, em virtude de proibições das federações internacionais específicas.

Eles desceram no Rio manifestando pesar pela penosa situação da delegação de seu país. Obviamente, só tinham liberdade para lamentar a decisão reguladora.

Por sua vez, o famoso ex-tenista Kafelnikov, já retirado do circuito, pôde contradizer toda a propaganda oficial, segundo o jornal “Clarín”, de Buenos Aires:

“Recuso-me a acreditar que as acusações contra o esporte russo são obra de nossos inimigos. Não acredito que a WADA faça essas acusações sem fundamento. Evidentemente, essas coisas aconteceram”. 





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