domingo, 12 de abril de 2020

Praga dedica praça a opositor putinista morto e Moscou se irrita

Praga renomeia praça diante da embaixada russa em lembrança de Boris Nemtsov, oposicionista oposto a Putin assassinado em Moscou quando ia denunciar que soldados russos morreram invadindo a Ucrânia
Praga renomeia praça diante da embaixada russa
em lembrança de Boris Nemtsov, oposicionista oposto a Putin
assassinado em Moscou quando ia denunciar
que soldados russos morreram invadindo a Ucrânia
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs





A praça onde está localizada a embaixada da Rússia em Praga passou a chamar-se Boris Nemtsov, nome de um dos principais oponentes de Vladimir Putin assassinado em fevereiro de 2015 nas proximidades do Kremlin.

A decisão, assumida pela Câmara municipal da capital checa, caiu mal na chefia da Rússia, suspeita do crime, por ter acontecido alguns dias antes do quinto aniversário do assassinato dessa figura política liberal, noticiou “Le Figaro” de Paris.

Cfr.: Oposicionista assassinado preparava relatório sobre soldados mortos na Ucrânia 

Sumiço e reaparição de Putin alimenta obscuros presságios

O porta-voz do Kremlin, Dimitri Peskov, não respondeu ao anúncio, mas fontes próximas ao poder russo questionaram os “verdadeiros motivos” da Câmara municipal de Praga.

“Por que você escolheu Boris Nemtsov?” questiona uma veterana fonte pró-russa, alegando que há muitas outras figuras que poderiam ter sido prferidas.

O questionamento se volta, porém, contra a Rússia “porque se incomodou com o nome de Boris Nemtsov”, tendo muitos outros dissidentes também mortos em circunstâncias escuras.



Boris Nemtsov, ex-ministro e reformista liberais, um dos opositores mais ferozes de Vladimir Putin, foi morto na noite de 27 para 28 de fevereiro na ponte Bolshoi Moskvoretsky, perto do Kremlin, por balas disparadas a partir de um carro.

Em 2017, cinco homens foram condenados a 11 e 20 anos de prisão pelo assassinato.

Praça foi rebatizada em ato pro-Europa e anti-Putin
Praça foi rebatizada em ato pro-Europa e anti-Putin
Mas parentes de Nemtsov, incluindo sua filha Zhanna Nemtsova, acham que eles eram “laranjas” e que os verdadeiros patrocinadores permanecem em liberdade (entenda-se o Kremlin).

Todos os anos, em Moscou e nas províncias, são prestadas homenagens ao dissidente assassinado. Mas em 2020 os comícios foram proibidos em várias cidades, incluindo São Petersburgo.

A Assembleia Parlamentar da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) pediu uma “nova investigação completa” do assassinato de Boris Nemtsov e sanções contra seus organizadores.

Mas Vladimir Putin, através de seu porta-voz, excluiu categoricamente qualquer investigação internacional em território russo desse crime político.

“Com esse gesto, Praga expressa sua solidariedade à oposição russa e ao movimento de direitos humanos”, disse o prefeito da capital, Zdenek Hrib.

Acrescentou que uma viela próxima à embaixada russa levaria o nome de Anna Politkovskaya, uma jornalista e ativista de direitos humanos que também foi assassinada em Moscou em 2006.

“Nemtsov e Politkovskaya defenderam a democracia e foram covardemente assassinados por isso”, tuitou o prefeito Zdenek Hrib.

Muitos vereadores, deputados locais e até o presidente da República, Milos Zeman, temiam a iniciativa, por ser um “movimento político arriscado”.

Russos pedem esclarecer pelo crime contra Nemtsov, quando investigava mortes de soldados invadindo país estrangeiro
Russos pedem esclarecer pelo crime contra Nemtsov,
quando investigava mortes de soldados invadindo país estrangeiro
A invasão de Praga pelos tanques soviéticos em 1968 e o desejo de vingança de Moscou ainda estão vivos.

Mas “a retórica cada vez mais agressiva de Moscou nas questões históricas acabou convencendo os hesitantes”, segundo o jornalista de Praga Ondrej Soukup.

Nos últimos anos, praças com o nome de Boris Nemtsov foram inauguradas oficialmente perto das embaixadas russas em Washington, Vilnius (Lituânia) e Kiev (Ucrânia).

Quando em 1984 uma rua de Nova York foi renomeada com o nome Andrei Sakharov em homenagem ao vencedor do Prêmio Nobel e ativista de direitos humanos, o significado foi claro: “Era questão de dizer francamente que queríamos acabar com a URSS”, lembrou uma fonte próxima ao governo russo, que criticou a atual decisão dos tchecos como “insustentável”.

Por trás da retórica diplomática, as feridas abertas no tempo comunista soviético sangram através da administração Putin.


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