domingo, 19 de fevereiro de 2023

Agonia do prestigio de Putin

Putin percebe que seu prestígio desaba e não encontra escapatória
Putin percebe que seu prestígio desaba e não encontra escapatória
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







Após 22 anos no cargo, Vladimir Putin parece ser devorado pelo drama do ateu que sente os dias contados enquanto o prestigio que o sustentava se desmorona sob os golpes das derrotas na Ucrânia que ele absurda e erradamente invadiu.

Alguns kremlinologistas afirmam que ele já apareceu bêbado diante das câmeras. Seu isolamento e perda de apoio até entre os cúmplices mais próximos apontam para um movimento sísmico profundo, lento, mas inexorável, escreveu “El Mundo” de Madri.

É difícil avaliar o estado de sua popularidade pois na Rússia quem falar desfavoravelmente está a priori condenado.

Não se apresentou para a entrevista coletiva anual em que ele respondia perguntas do público (se não eram fabricadas pela polícia política).

O cancelamento foi motivado pelos crescentes temores de que o evento fosse dominado pelos fatos negativos da Ucrânia.

Está claro na Rússia que Putin não conseguiu vencer, como dizem os órgãos da mídia, quase todos dirigidos pelo regime.

A “operação militar especial” está funcionando como um feitiço que se voltou contra o feiticeiro. O cansaço da luta está se espalhando no país, o mais de uma centena de mortos ou desaparecidos não pode ser mais ocultado.

Putin assiste deprimido e solitário à missa de Natal no Kremlin
Putin assiste deprimido e solitário à missa de Natal no Kremlin
Putin, segundo “El Mundo”, cancela aparições como uma soprano rouca. Tampouco fez seu discurso anual sobre o estado da nação ao parlamento.

Poucas semanas depois de dizer que suas novas conquistas fariam parte da Rússia para sempre, a bandeira ucraniana voltou a tremular na cidade que suas tropas devastaram ao chegar e ao partir. Drones ucranianos bombardeiam bases estratégicas no interior da Rússia que deveriam proteger Moscou.

O Kremlin retratou Putin como chefe invencível de uma fortaleza sitiada pelo Ocidente, mas hoje tem que admitir admite que os ucranianos atacam impunemente solo russo.

“Seu exército, seus serviços de inteligência, se mostraram inúteis contra um país muito menos poderoso”, explica Abbas Gallyamov, redator de discursos do presidente russo.

“O rei está nu. É difícil chamar alguém de perdedor se ele comete atrocidades para tentar inutilmente mudar o curso dos acontecimentos”.

Seis funcionários do Kremlin disseram ao The Moscow Times que o herói nacional não marca mais os tempos.

Putin sofre os golpes de crises no seio da cúpula mais fanática, escândalos de corrupção, protestos e até sequestros com tomada de reféns em massa.

Ele aumentou a repressão, mas muitos cidadãos nem se importaram. A maioria dos russos ainda enfrenta tantas dificuldades em suas vidas, está farta do governo, da polícia ou da lei,

Putin se assemelha a um avô raivoso que lança algumas diatribes contra o exterior que o russo comum não acompanha e não fazem efeito. Na cerimônia de anexação de Donetsk, Lugansk, Kherson e Zaporizhia, misturou o facticio nazismo ucraniano com Satanás, EUA e cenários apocalípticos no mesmo parágrafo.

O líder russo não consegue ser o mediador de negócios com uma Europa tão decadente e submissa aos EUA. Os países do velho Pacto de Varsóvia lhe viraram as costas. Faltam comestíveis que não são mais importados, as fábricas fecham e as empresas russas não podem mais continuar com seus negócios.

Nas décadas de putinismo os cidadãos permaneciam alheios à política e o governo não interferia em suas vidas privadas. Agora esse pacto quebrou em mil pedaços e Putin encontra manifestantes contra ele nas grandes capitais mais favorecidas.

O outrora controle invisível das informações se tornou ostensivo: a censura fez desaparecer canais, jornais e estações de rádio.

As pessoas têm medo de escrever nas redes sociais. Entrar numa lista de contatos de um celular amigo é risco de virar vítima.

Putin foi um czar ainda quando os hospitais funcionavam com base em propinas e algumas estradas eram um pântano que só existia no mapa ou o lixo era escondido nas montanhas perto das cidades.

Em 2021, ele não pode mais fugir ou esconder sua guerra. Putin teme até que alguém se atreva a chamá-la pelo nome. Os primeiros de seus homens que ousaram fazê-lo, apareceram “suicidados”. Mas agora somam milhões de descontentes que não acreditam na sua fama tão laboriosamente montada pela sua máquina de propaganda.

Ele troca seus generais que estão perdendo batalhas enquanto proclama que está ganhando.

Apareceu solitário e apagado numa missa cismática na Catedral da Anunciacao do Kremlin durante o Natal ortodoxo e não transmitiu segurança.

Seus propagandistas andam deprimidos. Sergei Markov surpreendeu dizendo que “os EUA são o principal ganhador de 2022”. O jornalista Maksin Yusin falou na TV que a “operação militar especial” na Ucrania não tinha atingido nenhum de seus objetivos.

O ex-assesor pessoal Sergei Glazyev, deplorou publicamente da falta de um objetivo claro
, de uma ideologia concreta, e de recursos necessários para ganhar a guerra contra Ocidente. Pareciam não temer ser encontrados enforcados no lustre de sua casa.

Embora Putin planeje reverter suas perdas nunca se recuperará de sua desastrosa guerra.

É muito improvável que obtenha vitórias importantes quando suas forças militares não tem vontade nem capacidade de defender os territórios que ocuparam.

Todos, desde os oligarcas de Moscou até os líderes comunistas de Pequim e os blogueiros nacionalistas outrora fanáticos propagandistas seus, entendem que glorias militares já não ressuscitarão sua fama.

Ninguém mais esconde as penúrias econômicas e a estagnação que todos sofrem. Dezenas de milhares dos melhores e mais brilhantes cidadãos abandonaram o país e muitos mais tentam fazê-lo.

O apoio social nas sondagens desmorona, embora na Rússia sejam falseadas pelo regime e se alguém criticar pode ser preso por até 15 anos pelo delito de “difusão pública e deliberada de informação falsa”.

No presente não surgiu nenhum movimento de massa em apoio de sua “guerra”, mas quase 20.000 pessoas foram presas por protestar contra ela. Mas o nervosismo pelo futuro a propósito do conflito cresce e os jovens urbanos, melhor formados e mais ricos preanunciam que Putin perde o porvir.

Putin afunda em crises paranoicas fechando canais ou mídias independentes, proibindo Twitter, Facebook e Instagram.

Porém a audiência da mídia controlada pelo Estado cai em picada e os canais de YouTube operados do exterior se multiplicaram astronomicamente especialmente quando Putin anunciou uma leva massiva. Foram mais os homens que fugiram da Rússia dos que foram recrutados.

Putin edificou uma ditadura altamente repressiva. Seus principais detratores estão presos. E se seus críticos de linha dura tomam o poder seria com os dias contados pois ninguém é conhecido.

Seus melhores dias ficaram no passado. Leonid Brezhnev naufragou no Afeganistão, e Putin o está fazendo na Ucrânia. Seu regime jamais se recuperará.

Dentro ou fora do poder, o colossal fracasso na Ucrânia soa o gongo do princípio do fim do putinismo. E suas condutas mais recentes sugerem que até ele é consciente disso, julga “El Mundo”.


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