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domingo, 9 de outubro de 2016

“Nem a propaganda soviética era tão descarada
como a de agora”

Svetlana Aleksiévich recebendo o Premio Nobel.
Svetlana Aleksiévich recebendo o Premio Nobel.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




A obra de Svetlana Alexievich, escritora bielorrussa de 68 anos que ganhou o Nobel de Literatura 2015, é considerada uma das chaves para entender a nova Rússia. Inclui livros como O Fim do Homem Soviético – Um Tempo de Desencanto e Vozes De Tchernóbil – A História Oral Do Desastre Nuclear.

Em Madri, ela concedeu uma entrevista ao jornal “El País”, respondendo com as perspectivas de futuro da nova Rússia.

Para ela, “é impossível prever. Não sabemos o que o caldeirão russo está cozinhando. Na Rússia, estamos revivendo a filosofia de uma fortaleza ameaçada, rodeada de inimigos e tomada pela histeria militarista de tempos passados.

“Todos os dias nos mostram na televisão o material militar adquirido: um novo navio de guerra, um novo avião, um novo tanque…

Existe uma propaganda muito agressiva contra Estados Unidos, Europa e Ucrânia. Há uma espiomania que está ressurgindo. É uma loucura.

“Nem a propaganda soviética era tão descarada como a de agora.



O jornalista espanhol observou que a escritora falava das liberdades na nova Rússia como sendo uma espécie de miragem. Ela respondeu:

“Ela é muito relativa. De que liberdade podemos falar ao considerar casos como o de Mikhail Khodorkovski, que, da noite para o dia, deixou de ser milionário e passou um detento? Depois de 10 anos na cadeia ainda não sabem de que crimes acusá-lo.

E o retorno das ideias comunistas na Rússia, o que isso significa?

Svetlana respondeu:

“Muitos jovens russos leem Trotski, Marx e Engels e veem Stalin como uma figura a ser imitada. Ainda são inaugurados museus em sua memória. Está na moda.

Putin e Stalin de um e outro lado do espelho
Putin e Stalin de um e outro lado do espelho
“Por trás disso se esconde o fato de que existe muita gente que se sente derrotada e idealiza o passado. Querem que se mantenha a liberdade de poder viajar pelo mundo e que as lojas estejam cheias de produtos, mas, ao mesmo tempo, desejam um socialismo igualitário.

“Na Rússia faz falta uma reflexão sobre o stalinismo, como aconteceu na Alemanha. Isso tem sido feito apenas por um pequeno grupo de intelectuais russos.

“É só olhar para o que aconteceu em Perm, uma cidade no norte do país.

“Ali existia um museu em homenagem às vítimas das repressões stalinistas.

“Quando Putin chegou ao poder, expulsaram os membros da direção do museu e puseram outras pessoas no lugar.

“Agora, o estabelecimento é dedicado aos trabalhadores do gulag. Já não homenageia os encarcerados, mas sim os carcereiros.

“Outro exemplo é a aprovação de uma lei que autoriza a perseguição e punição, por parte da justiça, de pessoas que questionem a vitória da União Soviética na Segunda Guerra Mundial.

“Estou convencida de que as mulheres que falaram comigo para o livro A Guerra Não Tem Rosto de Mulher não aceitariam dar as mesmas entrevistas agora”.



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