domingo, 15 de abril de 2018

Putin preside reabilitação
do maior assassino do século XX

Mulher protesta contra busto de Stalin erigido por entidade de Putin no centro de Moscou
Mulher protesta contra busto de Stalin erigido por entidade de Putin no centro de Moscou.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Tudo começou em 2009, quando a estação de metro Kourskaïa em Moscou foi ornamentada com a inscrição: “Foi Stalin quem nos educou na fidelidade ao povo, que nos inspirou no nosso trabalho e nas nossas realizações”, noticiou a agência France Press.

As autoridades tentaram abafar o pasmo dizendo que a estação foi restaurada em seu aspecto original: o da sinistra época stalinista.

Foi a primeira pedra. Nos últimos anos, bustos de Stalin, o ditador preferido de Vladimir Putin, vêm sendo erigidos em diversas cidades da Rússia, inclusive no centro de Moscou em setembro de 2017.

A onda é promovida pela Sociedade Russa de História Militar, instituto fundado pelo próprio presidente Vladimir Putin e dirigido pelo ministro de Cultura Vladimir Medinski.

Até então, todo 5 de março, dia da morte de Stalin, alguns magotes de velhíssimos militantes comunistas, sempre mais diminuídos, colocavam flores no túmulo do maior assassino de massa da História.

O túmulo está detrás do mausoléu de Lenin na Praça Vermelha, diante das muralhas do Kremlin. Eles eram conduzidos pelo líder do Partido Comunista Guennadi Ziuganov. Esse partido é um mofado resíduo do velho PC que na Duma nunca deixou de apoiar a Putin, mas se estiolava na insignificância.

Agora, eles se sentem revigorados pelo apoio do dono do Kremlin. O governador da região de Stavropol (sul), Vladimir Vladimirov, se orgulha de exibir sobre seu escritório um pequeno busto do maior criminoso do século XX. Ele sabe que assim ganha o favorecimento do chefe máximo.

O culto de Stalin reduzido a poucos saudosistas ganhou novo impulso com Putin
O culto de Stalin reduzido a poucos saudosistas ganhou novo impulso com Putin
A sociedade russa está profundamente dividida sobre a memória do ditador marxista. Para alguns nacionalistas ele foi o motor da industrialização do país e o artífice da vitória na II Guerra Mundial.

Mas muitos denunciam o tirano responsável de por volta de vinte milhões de pessoas cruelmente fuziladas, enviadas aos campos de concentração, mortas de fome ou deportadas para a Sibéria em aras da utopia da igualdade.

Em dezembro 2017, continua a AFP, o chefe da FSB (a polícia putinista que deu continuidade à KGB soviética), Alexandre Bortnikov, afirmou que uma “parte significativa” dos arquivos elaborados durante os expurgos stalinistas “tinham base real” e visavam “conspiradores” e pessoas “ligadas a serviços de espionagem estrangeiros”. Leia-se: Stalin fez bem em matá-los.

Trinta membros da Academia de Ciências da Rússia protestaram contra essa tentativa de “justificar os expurgos massivos dos anos 30 e 40, caracterizados por falsas condenas, torturas e execuções de centenas de milhares de compatriotas inocentes”.

“O problema é que nossos compatriotas não percebem a extensão dos crimes de Stalin e não sabem o que foram esses expurgos”, declarou a France Press o historiador Ian Ratchinski, da organização Memorial, a principal ONG que defende os Direitos Humanos na Rússia.

Memorial desenvolve um trabalho de primeira importância nas pesquisas das vítimas da repressão stalinista, mas está sendo hostilizada pelo regime que a acusa de “agente do estrangeiro”.

Em sentido contrário, no mês de fevereiro (2018), Vladimir Putin louvou o “devotamento” do escritor e jornalista russo Alexandre Prokhanov, grande defensor de Stalin, que comemorou seus 80 anos.

Estudantes de escola militarizada na inauguração de bustos de Stalin e Lenin no centro de Moscou
Estudantes de escola militarizada na inauguração
de bustos de Stalin e Lenin no centro de Moscou
O presidente russo pôs limites à critica do maior exterminador de vidas humanas do século XX sofismando que “uma demonização excessiva de Stalin é um modo de atacar a União Soviética e a Rússia”.

Ainda em fevereiro 2018, o Ministério da Cultura proibiu a difusão da comédia “A morte de Stalin”, qualificando-a “burla insultante do passado soviético, o país que venceu o fascismo”.

A venda de souvenirs e calendários com a esfinge do déspota cresce em livrarias, museus ou aeroportos, enquanto numerosos longas laudatórios são difundidos nas TVs públicas.

O efeito se faz sentir. Em junho 2017, Stalin chegou em primeiro numa sondagem do centro independente Levada sobre as personalidades mais destacadas do mundo em todas as épocas.

“A amnésia histórica é favorecida pela política do poder russo que conjuga a mitificação do passado soviético com uma justificação velada de seus próprios crimes”, destacou Lev Goudkov, do centro Levada.


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