terça-feira, 1 de junho de 2021

Guerra da informação russa promove confusão sobre vacinas anti-Covid

Desinformaão desestabiliza tentativas de combater racionalmente a doença
Desinformação desestabiliza tentativas de combater racionalmente a doença
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







Uma misteriosa agência de relações públicas com sede em Londres propunha a influenciadores das redes sociais da França e da Alemanha até milhares de euros com uma condição: apresentar a vacina da Pfizer como causadora da morte, noticiou o “The New York Times”.

A afirmação é falsa e a agência, de nome Fazze, é uma ficção, tem um site e se diz “plataforma de marketing influenciador” que conecta blogueiros e anunciantes.

A operação tinha um fundo criminoso: desanimar a vacinação das pessoas que caíssem no conto, sobretudo quando este era difundido por influenciadores já conhecidos.

Alguns dos influenciadores se perguntaram o que é que era essa agência Fazze que tentava seduzi-los com dinheiro.

A trilha os levou à Rússia. Sem sabe-lho esses influenciadores podiam cair na malha inescrupulosa da Guerra da Informação sempre ativa no império de Vladimir Putin, formado na polícia secreta soviética KGB.

“Incrível. O endereço da agência de Londres que me contatou é falso”, escreveu no Twitter Léo Grasset, quem publica matérias sobre saúde e ciências no YouTube e tem mais de um milhão de seguidores.

“Todos os funcionários [da misteriosa agência] tem perfis estranhos e desapareceram esta manhã. Todos eles antes trabalharam na Rússia”.

À Mirko Drotschmann, comentarista de saúde alemão com 1,5 milhão de assinantes no YouTube, foi oferecido participar numa “campanha de informação” sobre as mortes que provocaria a Pfizer. Em troca receberia dinheiro.

Falsas notícias contra vacinas há anos vem sendo difundidas desde a Rússia
Falsas notícias contra vacinas há anos vem sendo difundidas desde a Rússia
Foi pesquisar e concluiu: “Sede da agência: Londres. Residência do Diretor Executivo: Moscou”.

Dois outros influenciadores de redes sociais viram as denúncias de seus colegas e falaram que também foram contatados com pedidos de oferecer uma “colaboração” para criticar a vacina Pfizer-BioNTech.

A um deles foi oferecido 2.000 euros. Não se sabe ao certo quantos influenciadores receberam as propostas ou se foram aceitas, acrescenta o “The New York Times”. .

Essas descobertas levaram à procura da tal agência Fazze. Em poucas horas sumiu das redes sociais, desapareceram os perfis dos funcionários no LinkedIn e a página no Facebook, a conta no Instagram foi fechada e no site não havia modo de entrar em contato com a empresa fantasma.

O ministro da Saúde da França, Olivier Véran, denunciou a ação da agencia fantasma como “patética e perigosa”.

A França foi visada prioritariamente porque quase um terço de seus habitantes é cético com as vacinas. Muitos franceses não queriam a vacina AstraZeneca porque causaria coágulos sanguíneos sem poder precisar exatamente de onde tinham tirado essa informação que os empurrava para a escolher a Pfizer.

Na rua 55, em São Petersburgo sem identificação externa funciona uma das fábrica de fake news

Na rua 55, em São Petersburgo sem identificação externa
funciona uma das fábrica de fake news

Mas também apareceram mensagens no sentido contrário. 
 
A mesma fictícia agência Fazze num pobre inglês exortava animadores de redes sociais a criar posts e vídeos no YouTube, TikTok e Instagram “explicando” que “a taxa de mortalidade entre os vacinados com Pfizer é quase três vezes maior do que a de os vacinados com AstraZeneca”.

Nada poderia ser pior para criar uma gigantesca confusão com perigo para a saúde e a vida dos cidadãos.

Grasset, citado acima, recebeu uma mensagem de um desconhecido “Anton” contando que a agência Fazze tinha um orçamento “considerável” para uma “campanha de informação” sobre “Covid-19 e as vacinas oferecidas à população europeia” especialmente a britânica AstraZeneca e americana Pfizer.

“Anton” pagaria por vídeos de 45 a 60 segundos no Instagram, TikTok ou YouTube que contivessem a mensagem de que a vacina da Pfizer mata.

“Anton” também pedia agir “como se você tivesse paixão e interesse pelo assunto”, mas nunca dizer que estava sendo “patrocinado” ou ecoando alguma propaganda.

“O material deve ser apresentado como sua própria opinião independente”, dizia a proposta vinda dos fundos da Rússia.

“Incentive os espectadores a tirar suas próprias conclusões, a cuidar de si mesmos e de seus entes queridos”, continuavam as instruções para fingir desinteresse e imparcialidade.

Paracetamol conteria um vírus. O esquema se repete para fake news diversas
Paracetamol conteria um vírus. O esquema se repete para fake news diversas
Eles deveriam questionar os governos que usam a vacina Pfizer. E deviam enganar seus seguidores dizendo que “a grande mídia ignora a questão”.

Antes do coronavírus, os trolls russos já entravam nos debates sobre vacinas para semear a discórdia, mostrou um estudo de 2018 publicado no American Journal of Public Health.

As contas do Twitter que os agentes russos usaram durante as eleições presidenciais de 2016 nos EUA intercalavam mensagens contra as vacinas americanas.

Em abril (2021), um relatório da União Europeia observou que a mídia russa e chinesa semeava sistematicamente desconfiança nas vacinas ocidentais com campanhas de desinformação direcionadas ao mundo não comunista.

Obviamente, esses “fakes” russos e chineses nunca falavam mal da Sputnik-V e das várias chinesas.

No blog ficamos horrorizados pelo cinismo a que chegou à Guerra da Informação de Moscou e Pequim.

Mas logo compreendemos que todas as informações e posts que publicamos e recopilamos na página especial estavam mais atuais do que nunca.


Confira: A mentira e o engano na “Teoria e Ciência da Guerra” preferida de Putin


E, aliás, mais alarmantes do que nunca.

Por sua vez “La Nación” de Buenos Aires, voltou a colher abundante informação da desconfiança dos russos em relação à Sputnik V.

Eles alegam que vacina oficial conteria uma “sustância estranha” sem saber identifica-la, mas cujo espectro os afasta do medicamento e das autoridades de saúde.

Na Praça Vermelha, a vacinação é gratuita sem hora marcada em luxuosas lojas, como também em vários shoppings e jardins. Mas, ninguém ou quase ninguém comparece.

Putin alardeou a Sputnik V como a primeira vacina do mundo, mas, segundo o instituto independente Levada, mais de 60% dos russos não querem recebe-la. Nem mesmo recebendo presentes ou até 1.000 rublos (US$ 13,4) para os aposentados.

O prefeito de Moscou, Sergei Sobianin, exclamou consternado que “as pessoas continuam morrendo e não querem ser vacinadas”.

Sergei Sobianin, prefeito de Moscou:  “as pessoas não querem ser vacinadas”.
Sergei Sobianin, prefeito de Moscou:  “as pessoas não querem ser vacinadas”.
Os entrevistados aduzem argumentos estarrecedores, típicos de pessoas sensatas, mas desinformadas.

Alexei Levinson, sociólogo do Levada, explicitou essa desconfiança: os russos estão desencantados após décadas de propaganda soviética sempre ideologicamente enviesada e veem “objetivos políticos” na manobra da vacina.

Ania Bukina, 35, que trabalha com marketing, disse à AFP que não confia “absolutamente na produção médica russa por causa das reformas de saúde na Rússia ao longo dos anos, que comprometeram sua qualidade”.

“Prefiro esperar que as outras vacinas estejam disponíveis, não apenas as russas”, concluiu.

A França e a Espanha não reconhecem como válida a vacinação das pessoas que tomaram a Sputnik V podendo ser barradas até no aeroporto.


Covid-19: a campanha global de desinformação da China não fica atrás da russa





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