domingo, 21 de fevereiro de 2016

Hoje como ontem,
a Ostpolitik vaticana corteja o anticristo moscovita

O Patriarca Kirill recebe o Cardeal Koch, presidente do Conselho Pontifício para a Unidade dos Cristãos. Um documento feito nos termos impostos por Moscou. Os católicos concernidos foram mantidos na ignorância do que se preparava
O Patriarca Kirill recebe o Cardeal Kurt Koch,
presidente do Conselho Pontifício para a Unidade dos Cristãos.
Um documento feito nos termos impostos por Moscou.
Os católicos concernidos foram mantidos na ignorância do que se preparava
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




A declaração assinada no aeroporto de Havana pelo Papa Francisco e pelo patriarca moscovita Kirill em 12 de fevereiro veio colidir com o sentimento de milhões de católicos no mundo inteiro, registrou o vaticanista Sandro Magister.

De modo especial na Ucrânia e na comunidade de rito greco-católico de origem ucraniana dispersa pelo mundo após as ferozes perseguições comunistas, a qual conta com cerca de 15 milhões de fiéis católicos. Nessas perseguições, o denominado patriarcado de Moscou teve parte ativa e resultou em grande beneficiário.

O arcebispo-mor do rito greco-católico, Mons. Sviatoslav Shevchuk, sintetizou:

“Muitos entraram em contato comigo e me disseram que se sentem atraiçoados pelo Vaticano, decepcionados pela característica de meia verdade desse documento, que chega como um apoio indireto da Santa Sé à agressão russa contra a Ucrânia.”

Confira no portal web oficial da Igreja greco-católica: “Dois mundos paralelos (em inglês)”.



Mas o líder do mais numeroso rito oriental católico não esteve isolado em sua severa crítica à linha filorussa da Santa Sé.

O novo Núncio Apostólico na Ucrânia, arcebispo Claudio Gugerotti, no cargo desde o mês de novembro, pediu aos fiéis para esquecerem o ato que lhes faz lembrar o beijo de Judas a Cristo.

Confira: O Núncio na Ucrânia sobre o documento de Francisco e Kirill: “É para esquecer” (em inglês)

Em 15 de fevereiro, Myroslav Marynovych, vice-reitor da Universidade Católica de Lviv, cofundador de Anistia Internacional Ucrânia, membro fundador do Ukrainian Helsinki Group e ex-prisioneiro político, escreveu com a verve de quem padeceu ao vivo o fruto do conluio entre o governo de Moscou e o patriarcado de Moscou.

Confira: Uma reunião histórica com consequências também históricas (em inglês).


Excertos da entrevista de Sua Beatitude Sviatoslav Shevchuk,
chefe do rito greco-católico ucraniano (“uniata”)


Sua Beatitude Sviatoslav Shevchuk, cabeça da Igreja greco-católica ucraniana, abordou com grande respeito e filialidade o gesto do Papa Francisco. Mas ele o fez seguindo o exemplo de São Paulo, que resistiu em face a São Pedro, apontando-lhe as verdades com firmeza e espírito de verdade (Gálatas, 2-11).

São Pedro acertou o passo com o Apóstolo das Gentes e não se sentiu diminuído nem ofendido. É de se desejar que o Papa Francisco reaja de modo análogo, inspirado naquele de quem é sucessor.

Bispos húngaros assinam Constituição comunista em 1969 e ficam dependentes do arbítrio de Moscou.
Bispos húngaros assinam Constituição comunista em 1969
e ficam dependentes do arbítrio de Moscou.
Dom Sviatoslav ressaltou, de início:

“Baseando-nos em nossa experiência amadurecida ao longo de muitos anos, podemos dizer que quando o Vaticano e Moscou organizam encontros ou assinam textos conjuntos, é difícil esperar algo bom.”

E comentando o posicionamento dos dois, disse: “A intervenção do patriarca de Moscou nada teve a ver com o Espírito Santo, a teologia ou as questões religiosas atuais. O acento foi posto em expressões solenes sobre ‘o destino do mundo’ e sobre o aeroporto como ambiente neutro, ou seja, não eclesial”.

A respeito do texto da declaração assinada, o alto prelado ucraniano observou que “os pontos que concernem em general à Ucrânia, e em especial à Igreja greco-católica ucraniana, levantam mais interrogações que respostas”.

O arcebispo-mor de Kiev explicou que oficialmente o documento foi elaborado pelo metropolita russo Hilarion Alfeyev e pelo cardeal Koch, presidente do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos, encarregado do ecumenismo.

“É difícil imaginar uma equipe mais débil do que [a católica] que redigiu esse texto”, explicou D. Sviatoslav. Pois o texto não é de natureza teológica, mas política, envolvendo a agressão russa na Ucrânia e a política internacional.

D.Sviatoslav Shevchuk, arcebispo-mor do Rito Greco-Católico da Ucrânia
D.Sviatoslav Shevchuk, arcebispo-mor do Rito Greco-Católico da Ucrânia
D. Sviatoslav manifestou também seu espanto ante o fato de que, sendo ele membro do dito Conselho, não ter sido convidado a se manifestar, deixando os católicos ucranianos sem voz numa questão que os concerne a fundo.

Interrogado sobre o parágrafo 25, um dos que causaram mais consternação no mundo católico, o arcebispo respondeu:

“Parece que eles [os cismáticos russos] já não contestam o nosso direito de existir. Mas, na realidade, não estamos obrigados a pedir licença a ninguém para existir e agir”.

O líder da hierarquia greco-católica apontou uma contradição que, para o simples leitor, faz pensar numa artimanha hipócrita do patriarcado de Moscou.

Uma declaração conhecida como de Balamand, de 1993, vinha sendo utilizada pelo metropolita Hilarion “para negar nosso direito de existir, mas agora é utilizada para afirmá-lo.

“Insistindo na recusa do ‘uniatismo’ como método de união entre as Igrejas, Moscou sempre pediu ao Vaticano a proibição virtual de nossa existência e a limitação de nossas atividades.

“Esse requisito foi sempre imposto como uma condição, em termos de ultimato, para um possível encontro do Papa com o patriarca”.


continua no próximo post: Declaração de Havana: vitória do Kremlin será efêmera

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