domingo, 24 de julho de 2016

Maskirovka: a guerra não-militar
que invade e conquista

Homenzinhos de verde: de início apareceram desarmados.
Quando apareceram armados foi tarde: a Rússia tinha invadido.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




A partir da invasão da península da Crimeia e do leste ucraniano, os estrategistas ocidentais estão lidando com um novo tipo de guerra posta em prática por Vladimir Putin, comentou o blog “The Great Debate”, da agência Reuters.

Um exemplo típico se deu na Crimeia com a invasão dos “pequenos homens de verde”.

Desarmados e silenciosos, uniformizados se instalavam nos cruzamentos e pontos nevrálgicos das cidades, sem nenhuma identificação. Eles se revezavam, transportados por caminhões, e, do nosso ponto de vista sul-americano, exploravam de modo incrível a ingenuidade europeia.

Ninguém queria imaginar o que viria. E veio. Certo dia, um dos turnos de revezamento dos “pequenos homens de verde” desceu com armas de guerra diante de autoridades e da população postas na pasmaceira: a Crimeia havia sido invadida pela Rússia sem disparar um só tiro.

No leste ucraniano, os invasores eram “separatistas” do Donbass que queriam a preservação de sua língua e de sua cultura russófila.



Mas esses amantes do passado russo resultaram ser chechenos e de outras nacionalidades, membros de gangues usadas pelo Kremlin para esmagar no sangue as minorias étnicas dissidentes; eram também soldados e oficiais de unidades de elite do Exército russo.

Por fim, o exército de Moscou entrou escancaradamente e se instalou em território ucraniano. Também nesse caso Washington e Londres demoraram demais para perceber a passada de perna.

Desde então, a interrogação passou a ser: qual será o próximo estratagema de invasão?

Um termo russo foi cunhado em Moscou: Maskirovka (literalmente = dissimulação, engano). Ele define uma forma de ataque que não pode ser qualificada diretamente de militar.

Contra esse ataque os aliados da NATO podem discutir indefinidamente se eles estão sendo agredidos militarmente e se as cláusulas do Tratado Atlântico se aplicam ou não.

Sobretudo o famoso artigo 5 da Carta fundadora da Aliança Atlântica, assinada em 1949, a qual define que o ataque a um país membro equivale a um ataque contra todos.

De início foram 'patrióticos separatistas ucranianos'. Depois resultaram ser milicianos profissionais vindos de toda a Rússia
De início foram 'patrióticos separatistas ucranianos'.
Depois resultaram ser milicianos profissionais vindos de toda a Rússia e alhures
Em verdade, a Maskirovka não é algo tão novo assim. O Cavalo de Troia é seu antepassado mais conhecido.

Foi um ato militar? Na aparência, não. Foi um “presente” deixado pelos gregos aos troianos. Com a vontade de comemorar o fim da guerra, esses o receberam sem desconfiança e introduziram dentro dos muros inexpugnáveis da cidade.

E enquanto os troianos dormiam, os soldados gregos saíram de dentro do cavalo, abriram as portas da cidade, exterminaram seus defensores e deixaram-na em ruínas. Troia, que resistira tão heroicamente ao assalto armado, caiu vítima de sua falta de desconfiança e da astúcia dos gregos.

Em setembro de 2014, o presidente Barack Obama visitou a Estônia e garantiu que a defesa de Tallinn, Riga e Vilnius era tão importante para os EUA quanto a defesa de Berlim, Paris e Londres.

Mas Obama pensava numa guerra convencional. E talvez tenha deixado para a História o discurso da perda tola de Ocidente por obra de um Cavalo de Troia upgraded.

A superioridade numérica e qualitativa dos aliados face ao exército russo diminuído e sucateado é de várias vezes. Em 2007, a NATO contava com 61.000 blindados, jatos e helicópteros, contra 28.000 russos; e com mais de três milhões de soldados contra menos de um milhão do lado do Kremlin.

Não é muito provável que Putin queira desafiar a NATO numa ofensiva de avião contra avião, ou de tanque contra tanque.

A esperança de Putin é a Maskirovka .
“O uso escancarado das forças militares é só para a fase final do conflito”, escreveu o general Valery Gerasimov, chefe do Estado Maior russo, num artigo para o semanário Military-Industrial Courier.

A Maskirovka é talhada caso por caso, usando pesadamente a propaganda, a guerra psicológica e, sobretudo, a enganação.

General Valery Gerasimov: “O uso escancarado das forças militares é só para a fase final do conflito”
General Valery Gerasimov: “O uso escancarado das forças militares
é só para a fase final do conflito”
“É uma nova forma de guerra que não pode ser caracterizada como campanha militar no sentido clássico do termo”, diz relatório do Centro de Pesquisas para a Segurança e a Estratégia da Letônia, que fala de uma “ocupação militar invisível”.

Por isso, causaram arrepio nos analistas as desordens promovidas por torcidas organizadas russas em Marselha durante a Eurocopa 2016.

Em princípio, os violentos torcedores russos foram disputar com os hooligans ingleses a nada invejável coroa dos mais violentos. Até lá, mais um episódio deplorável que degrada o esporte, como já houve outros, comentou “La Nación”.

O problema foi que os russos que protagonizaram os selvagens incidentes, segundo Ronan Evain, expert francês em violência esportiva russa, “são especialistas da ultraviolência que operam como comandos perfeitamente organizados e treinados, não se drogam, nem bebem sequer uma gota de álcool, golpeiam e fogem, e por isso nenhum deles foi preso”, ao menos de início.

Os 150 russos que inauguraram as operações de violência foram “jovens entre 25 e 35 anos, na sua maior parte integrantes dos grupos mais agressivos da Rússia”, segundo fonte policial.

Antes de chegarem a Marselha eles se fizeram anunciar em postos de gasolina e áreas de repouso. “Foram operações tipo comando, perfeitamente organizadas. Os torcedores ingleses não estão estruturados para enfrentar essas agressões”, reconheceu o chefe da polícia de Marselha, Laurent Nunez.

A maioria dos “torcedores” russos mascarados faz parte dos grupos de choque do Kremlin que são utilizados com finalidades políticas. Ronan Evain explicou que “agredir jornalistas importunos, militantes de direitos humanos ou dissidentes faz parte de suas atividades remuneradas”.

Muitos deles viajam periodicamente para o leste de Ucrânia a fim de participar de batalhas juntamente com os “separatistas” pró-russos.

Mykhailo Samus: após Marselha, a Europa pode entender melhor os métodos híbridos usados pela Rússia.
Mykhailo Samus: após Marselha, a Europa pode entender melhor
os métodos híbridos usados pela Rússia.
Eles chegaram a Marselha “conhecendo perfeitamente a geografia do local. Selecionavam o alvo, agiam em grupos de 10 a 15, atacavam durante poucos segundos e fugiam pelas ruelas próximas, sendo substituídos por outro comando”, explicou o historiador Sébastien Louis, especialista em torcidas organizadas europeias.

Para não ser detectados pela policia, eles não usam as camisetas de seu país nem de seus clubes, mas roupas anódinas para sumirem na massa. O único russo pego inicialmente na rua pela polícia foi liberado logo depois por falta de provas.

Segundo a polícia, a maioria dos comandos que combateram em Marselha voltou de imediato para Moscou e está sendo substituída por outros grupos.

O caso de Marselha pareceu muito um ensaio de Maskirovka .

Os entendidos ficaram com o coração na boca. O continente comemorou em espírito de festa os jogos da Eurocopa, enquanto o novo Cavalo de Troia passeava por Marselha.

A UEFA ameaçou expulsar a Rússia da competição e falou-se até em retirar de Moscou a sede da Copa do Mundo de 2018, reavivando suspeitas de corrupção na escolha. Talvez isso acalme o treino da Maskirovka na Eurocopa.

Mas não estará a Rússia testando outras formas inimagináveis de Maskirovka ? Quiçá explorando as invasões de migrantes muçulmanos? 

Não poderá haver – e, isso sim, seria surpreendente para os desavisados – um lance ousado de Maskirovka preparado para as eleições presidenciais americanas?

Num hotel fora de Marselha funcionava uma espécie de QG dos comandos russos. A polícia deteve 43 deles em Mandelieu-la-Napoule (Alpes-Marítimos), quando iam repetir suas operações em Lille.

Moscou reagiu como se tivessem tocado em soldados uniformizados. É “um incidente absolutamente inadmissível, trovejou o ministro de Relações Exteriores, Serguei Lavrov, em discurso diante da Duma (Parlamento), segundo informou a agência France Press.

Moscou convocou o embaixador da França para protestar contra esse “acirramento dos sentimentos anti-russos, susceptíveis de agravar consideravelmente as relações franco-russas”. Obviamente, Lavrov não estava vendo no episódio um mero fato de nível policial.

O próprio Putin fez a apologia dos heróis que, segundo sua versão, reproduzida por “El Mundo”, em número de “200 surraram vários milhares de ingleses”, enquanto era ovacionado em São Petersburgo.

Entre os presos posteriormente expulsos estava Alexandre Chpryguine, que já fora flagrado junto com Vladimir Putin.



'Após Marselha, a Europa pode entender melhor os métodos híbridos usados na Ucrânia' (Mykhailo Samus, especialista militar)





Um teste de maskirovka no coração da França











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